ANGOLA | A literatura infantil em Angola

por Maria Celestina Fernandes


A literatura infantil angolana, propriamente dita, começou a despontar no início da década de oitenta. No período colonial os livros destinados às crianças eram de autores portugueses, dos clássicos Andersen, Irmãos Grimm, Perrault e outros, cujos conteúdos eram alheios à cultura e ao modus vivendi dos nativos.


Porém, nas zonas rurais e suburbanas, onde escasseavam escolas e, por conseguinte, um índice de analfabetismo bastante elevado, poucas pessoas tinham contacto com aquelas obras e era da literatura oral, passada de geração em geração através da voz sábia dos mais velhos, que se alimentavam. O conhecimento dos kotas (mais velhos) era transmitido quase sempre ao serão, em redor de uma fogueira ou nos jangos, antes da hora da dormida – hábitos que lamentavelmente se vão perdendo com a migração das gentes para os centros urbanos, de sorte que uma boa parte da população desconhece a oratura. Por outro lado, uma vez que o registo escrito é diminuto, a tendência é ela vir a esfumar-se da memória colectiva do povo.



{Jardim do Livro Infantil, Luanda, 2016 | http://www.angop.ao}


Como referimos, a literatura para crianças, genuinamente angolana, deu os primeiros passos nos anos 80 e digamos de forma espontânea quando um grupo de cidadãos, consciente da lacuna, decidiu escrever histórias, sendo algumas delas adaptações de contos tradicionais. A intenção era fazer chegar aos mais novos, onde quer que se encontrassem, as diferentes facetas e manifestações da terra e do povo, de forma simples e recreativa: hábitos e costumes, canto, folclore, linguajar, mitos, tradições, belezas, fauna e flora, etc.


Integravam o grupo de pioneiros: Dario de Melo, Cremilda Lima, Zaida Dáskalos, Octaviano Correia, Maria Eugénia Neto, Gabriela Antunes, Rosalina Pombal. Numa primeira fase, os desbravadores começaram por publicar os contos na página infantil dominical do Jornal de Angola e a fazê-los passar em programas infantis da Rádio Nacional. Mais tarde o Instituto Nacional do Livro e do Disco-INALD, actualmente INIC-Instituto Nacional das Indústrias Culturais, órgão afecto ao Ministério da Cultura, procedeu à recolha e ilustração dos textos e editou. Assim nasceu a colecção Piô-Piô com doze títulos, seguida da colecção Miruí. Entre os títulos destacamos: Quem vai buscar o futuro?, A raposa e a perdiz, Lutchila, A trepadeira que queria chegar ao céu, O pequeno elefante e o crocodilo, A amizade do leão não se faz com traição, A águia, a rola, as galinhas e os 50 lwei, Kibala, o rei Leão, O Tambarino dourado, O maboque mágico, O pato que não sabia nadar.


Eram livros de bolso bastante frágeis, impressos em letra de tamanho muito pequeno; em contrapartida, apelativos pelo colorido das ilustrações. De aplaudir foi o facto de terem saído em grandes tiragens e muitos dos exemplares chegarem aos leitores gratuitamente ou a preços módicos. Uma novidade e um regalo que a todos orgulhou: folhear livros que falavam de coisas com as quais se identificavam, foi deveras gratificante. E como na altura assistia-se ao processo de massificação da alfabetização, o interesse de filhos e educadores foi surpreendente! Este foi, de facto, o período áureo da nossa literatura infantil…



{Crianças angolanas em projeto de leitura: https://bit.ly/2NMvxDR }

O grupo acabou por se desmembrar pouco depois, mas novas editoras, novas obras e novos autores emergiram no mercado livresco, embora nem sempre em quantidade e qualidade desejável. Dos desbravadores, alguns já falecidos, apenas Cremilda Lima continua a apresentar inéditos com alguma regularidade.


A União Dos Escritores Angolanos, a primeira associação/editora do país, que já havia editado, logo após a proclamação da independência, o livro de Pepetela As Aventuras de Ngunga e E nas florestas os bichos falaram de Maria Eugénia Neto, textos revolucionários concebidos durante o processo da luta de libertação nacional, continuou a publicar livros para crianças e jovens na colecção denominada Acácias Rubras. Nesta colecção incluem-se as obras de José Alves Um poema e sete estórias de Luanda e do Bengo e de Maria Celestina Fernandes A borboleta cor de ouro, obra de sua estreia no mundo das letras, embora já tivesse trabalhos publicados em páginas de jornais desde o dealbar da década de 80.


Actualmente a autora conta com uma vasta obra em prosa e poesia, alguma dela traduzida e premiada. Kalimba e recentemente Kambas para sempre saíram sob a chancela da editora brasileira Kapulana. O livro A árvore dos gingongos faz parte dos onze clássicos da literatura infantil angolana e no Brasil a edição feita pela DCL foi distinguida com o Diploma Altamente Recomendável da FNLIJ.


Para além dos já mencionados, passamos a citar nomes de mais autores: Manuel Rui, o autor do conhecido livro Quem me dera ser onda e de A caixa, este publicado antes das edições do INALD, porém pouco divulgado, Ondjaki que tal como nós foi premiado no concurso do conto promovido pela Associação Cultural e Recreativa Chá de Caxinde e também distinguido pela FNLIJ, John Bela, Marta Santos, Kanguimbo Ananás, Zuline Bumba, Maria João, António Pompílio, Ngonguita Diogo, Alice Berenguel, Áurio Quipungo.


Algumas iniciativas têm sido empreendidas visando a promoção do livro e o incentivo à leitura, a exemplo da Feira do Livro Infantil realizada anualmente e do concurso literário a ele acoplado, contudo ainda há um longo caminho a percorrer para o real desenvolvimento e valorização da literatura infantil em Angola. Urge colocar o livro ao alcance do leitor em bibliotecas escolares e nas comunidades, formar formador, mediadores, etc. Actualmente, devido à crise económica, as edições e reedições paralisaram e dos concursos literários apenas subsiste o do Jardim do Livro Infantil.





{MARIA CELESTINA FERNANDES é uma das principais escritoras da literatura infantil angolana. Alguns de seus livros foram publicados no Brasil.}












Obras de Maria Celestina Fernandes publicadas no Brasil.









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