CRÍTICA | Olavo Bilac: o cronista

Atualizado: 10 de Ago de 2018

por Rafael Voigt




440 crônicas de Olavo Bilac, publicadas no jornal A Notícia {RJ}, entre os anos 1900 e 1908, estão republicadas na obra Registro: crônicas da Belle Époque carioca {2011, Editora da Unicamp}, em trabalho de pesquisa, catalogação, transcrição, revisão e organização de Alvaro Santos Simões Jr., professor de literatura brasileira na Unesp.


Simões Jr. é extremamente claro ao apontar o objetivo principal dessa antologia de crônicas de Bilac: “documentar o posicionamento do cronista diante do processo de modernização por que passava o Rio de Janeiro no início do século XX” (p. 36).


Ao cobrir boa parte do período da primeira década do século 20, as crônicas de Bilac registram um tempo em que se propõem questões prementes de vários setores da vida brasileira, especialmente da ótica de quem vivia e participava da imprensa carioca.


Rio de Janeiro (ou Sebastianópolis, como às vezes é nomeada pelo cronista) abastece de temas as crônicas de Bilac. Se por um lado o valor histórico dessas crônicas está no registro da formação e modernização da cidade, como bem acentua o professor Alvaro Simões Jr.; por outro, nota-se que essa modernização se deu diante de quadro social fartamente documentado pelo cronista, composto de crescimento urbano descontrolado, pobreza, falta de saneamento básico, incluindo precário abastecimento de água.


Dentro do largo quadro social estampado por Bilac da capital federal de seu tempo, é possível conectar as crônicas com a contemporaneidade. Salta aos olhos, por exemplo, a relação da atual e desastrosa intervenção militar no Rio de Janeiro e sua similitude com o fio histórico da denúncia de Bilac sobre a inoperância da polícia em “População ignorada” (1902):


Ou por má organização da polícia central, ou por deficiência de pessoal na brigada policial, o que está na consciência de todos é que o Rio de Janeiro não tem policiamento. E como “sociedade civilizada” quer dizer essencialmente “cidade policiada”, deixemo-nos de lamentações estéreis. (p. 128)


A diversidade de temas é uma característica própria dos cronistas, “filhos de Cronos”, em particular quando se sabe que a coluna “Registro”, no jornal A Notícia, se alimentava de crônica diária. Trata-se de diversidade difícil até mesmo de ser catalogada, por mais que haja um critério na seleção das crônicas. Como instrumentos valiosos de pesquisa, há cuidadosos índices onomástico e remissivo ao final da edição preparada pela Editora da Unicamp.


No espaço dessa crítica, seria inútil e contraproducente esmiuçar todos os assuntos abordados por Olavo Bilac em Registro.


O modelo de vida parisiense, símbolo da Belle Époque, aparece aqui ou ali nas crônicas, seja pela comparação do Rio de Janeiro com a capital francesa, seja por meio da possibilidade de na América do Sul se instalar uma capital dentro desses moldes, como acontecia em Buenos Aires. Nesse ínterim, um dos pontos mais debatidos por Olavo é sobre o descaso com o saneamento da cidade do Rio de Janeiro.


Sobre o capítulo do saneamento, muitas elucubrações - das mais proveitosas - podem ser feitas sobre o posicionamento político de Bilac, para o argumento em prol da proteção e segurança social, a partir da oferta de melhores condições de vida à população.


Um dos pontos de culminância dessa preocupação com o saneamento e a higiene pública chega na crônica “Reações à vacina” (11.11.1904), em que se coloca à tela o episódio histórico da Revolta da Vacina:


"{...} Essa gente tem a sua opinião, - e é preciso que se respeitem todas as opiniões. Mas o que é perfeitamente injusto e perfeitamente reprovável, é que contra essa medida se açule, de modo irritante e perverso, o ódio da multidão. O regulamento da vacinação obrigatória vai ser estudado e discutido por homens competentes; e já esta mesma Notícia começou ontem a recolher opinião e críticas de profissionais ilustres. Essas coisas não se podem estudar nem discutir no meio da rua, aos berros.

Se houver motins de certa gravidade, a quem caberá a responsabilidade deles? – Ao governo que calmamente procura obter sobre o seu regulamento a opinião da gente que sabe onde tem o nariz? Ou àqueles que vão logo apelando para a rebelião e para a desordem? {...}" (p. 304)


Outro fato correlato às medidas saneadoras encontra-se em “O arrasamento do morro do Castelo”, em que se discute a destruição do morro, levado a cabo em reforma urbana de 1922. Tudo a conta de livrar a cidade da alcunha de “Pestópolis”, como assinala Bilac em “Resistências à higiene” (13.02.1905). Nesse particular, em “O Palácio do Congresso” (04.06.1906), o cronista destaca a atuação de expoentes da política e da história carioca:


"{...} Se, nestes últimos quatro anos, de abençoado e espantoso progresso, o Brasil houvesse prestado o ouvido e dado atenção ao apavorado clamor dessas Cassandras, nada se teria feito. Lauro Müller não teria realizado a obra benemérita da construção do porto e da radiante Avenida Central; Pereira Passos não teria transformado a velha cidade imunda numa capital esplêndida; e Osvaldo Cruz não teria tirado de cima de nós o espantalho, o terror, o pesadelo da febre amarela! {...}" (p. 387) [grifos meus]


Outras comparações com o modelo de vida europeu ou norte-americano são exemplos de idealizações de Bilac sobre a nação, por vezes em flagrante contradição. Tal como acontece com o uso da violência e da força, que, segundo a fina ironia do cronista, são legítimas e revelam o avanço de uma nação, como no relatado tumulto durante as eleições no Rio de Janeiro em fins de 1901:


"{...} Aqui houve cinco ou seis cabeças quebradas; em qualquer capital da Europa haveria cem mortos e quinhentos feridos. Na América do Norte, uma eleição é uma rude campanha em que se gastam milhões de dollars e milhões de balas de Smith-Wesson. Põe em campo, a princípio, a corrupção, mas afinal a boa causa triunfa, o povo impõe a sua vontade – e a prova de tudo é para bom fim está em que as cidades norte-americanas são modelos de limpeza, de conforto, de higiene e de boa administração... {...}" (“Eleições violentas”, 30.12.1901)


Olhando para outra faceta do cronista, convém ressaltar que dariam um estudo à parte as narrativas de viagem de Olavo Bilac. Há muito o que se analisar sobre suas impressões de viajante, em um exercício literário de quem escreve num átimo, de prontidão, como um diário contínuo, como se a vida não fosse vida sem que a escrita o acompanhasse de perto. Refiro-me, particularmente, à sua viagem para a Europa em 1904, em que pousou por seis meses entre as cidades de Lisboa, Paris, Turim, Gênova, Roma e Florença.


Nessas viagens, reúne-se grande acervo cultural e de reflexões socioculturais de Bilac sobre o Brasil e sobre o Rio de Janeiro, o que não destoa da seleta realizada por Álvaro Simões Jr. São essas viagens que formam boa parte do espírito de Bilac, o que é bem anotados por ele. É o que se observa em sua passagem por Turim:


"Ainda há poucas horas, na Pinacoteca da Academia de Ciências de Turim, diante de uma Virgem de Giovanni Bassi, diante de um Felipe IV de Velázquez, diante da Danaé de Veronese e do S. Jerônimo de Ribera, passei minutos de vida espiritual que valeram mais do que anos de vida animal." (“Em Turim”, 20.07.1904, p. 270)


Sinto, em particular, que voltarei algumas vezes a essas narrativas de viagem de Bilac. O processo de leitura e estudo de uma obra, empreendida por um crítico literário, resulta, infindáveis vezes, em mais pesquisas. E o sabor da descoberta agrega significados ao já escrito. Foi com surpresa que, em breve consulta na rede, encontramos o livro Viagens, de Olavo Bilac, composto de uma série de poemas provavelmente inspirados por suas experiências de viajante. Escusado dizer que Viagens merece nova leitura a partir do que as próprias narrativas do viajante Bilac sugerem, para amplitude dos significados de sua poética.


Deixo, antecipadamente, sugestão para que seja compilada obra sobre as narrativas de viagem de Bilac. Em Registro, há uma boa amostra de seu valor literário.


Para o pesquisador da área de literatura, abre-se nesse volume outra possibilidade de pesquisa: o nacionalismo e o espírito patriótico de Bilac. Uma das vias desse campo de pesquisa seria acompanhar, no discurso do cronista, as comparações estabelecidas entre o Brasil e as demais nações, em discussões sobre a política internacional ou a simples análise de outras nacionalidades, como acontece no texto “Civilização Norte-Americana” (29.12.1904):


"Aqui, no Brasil, quase todos acham que a América do Norte é o ideal de nação, um modelo de país, a flor suprema da Civilização Humana...

Santo Deus! Civilização não é só riqueza e força: civilização é, principalmente, justiça e bondade. (...)" (p. 314)


Ainda sobre esse capítulo do nacionalismo no discurso de Bilac, mereceria sincera atenção “Perigo estrangeiro” (10.01.1905), em relação aos imigrantes alemães do Sul do país. E, claro, não podem ficar de fora dessa temática aquelas crônicas em que ovaciona figuras de relevo de nossa história, como “José do Patrocínio” (30.01.1905), “Tiradentes” (21.04.1906), “Deodoro da Fonseca” (16.10.1908).


O conteúdo nacionalista ou patriótico do cronista pode chegar às raias de discutir o lema da bandeira brasileira:


"{...} Cosidas à faixa branca que retalha a esfera azul, aquelas letras obrigam a nossa bandeira a ter direito e avesso: e não há nada tão ridículo como possuir uma divisa, que, ao sabor do vento, ou ao acaso da posição em que se olha o pano, tanto pode ser Ordem e Progresso, - como ossergorP e medrO, - que parece língua de maluco." (p. 348)


Nesses dias de governo ilegítimo no Brasil, parece que nossa bandeira só tremula a contrapelo, pelo avesso, em contraposição a seu lema e no rumo do ossergorP e medrO. Mas, cabe lembrar que Bilac escreveu a letra do “Hino à bandeira”. Coerente com essa crônica, o poeta não utiliza o lema da bandeira no hino.


Outro traço da composição de nossa identidade nacional revela-se em um bom conjunto de crônicas do poeta parnasiano: a língua portuguesa. Discute as mais diversas questões, entre elas a “Reforma ortográfica” (25.05.1905): “É inegável que a barafunda, na maneira de grafar as palavras, é grande e deplorável. No Brasil (com s ou z?) ninguém se entende neste particular. Veja-se a imprensa diária... Nós, aqui, na Notícia, escrevemos registro; na Gazeta, escreve-se registo. {...}” (p. 339).


Ainda no que tange a aspectos da cultura nacional, inadequações de nossos costumes, em especial da classe da população aspirante aos padrões belle époque, podem ser lidas em “Roupas claras e leves” (14.11.1905): “Oh! A sobrecasaca! Oh! A Cartola! Oh! Essa negra mortalha e essa fúnebre chaminé lustrosa, com que os ‘homens sérios’ desta terra afligem durante o verão o corpo e a cabeça, para afirmar e manter a sua seriedade!” (p. 367).


Por vezes, durante a leitura, somos tomados de espanto em crônicas como “Comércio de escravos” (1905), pelo simples motivo de Bilac mencionar que ainda havia, àquele tempo, no Brasil a escravização e o comércio de pessoas. Não custa lembrar que essa peste ainda não foi erradica do Brasil...


Em estudo sobre o ciclo da borracha na Amazônia, sabe-se das agruras por que passavam os seringueiros no Acre, transformando-se em verdadeiros escravos, como, nos dizeres de Euclides da Cunha, homens que trabalhavam para se escravizar. Contudo, parece que não é somente a esse fato histórico a que o cronista faz menção, a partir do que lê em um jornal. Merece destaque o seguinte excerto de “Comércio de escravos”:


É um telegrama lacônico, - apenas duas linhas secas: “Manaus, 15. – O prefeito do Acre publicou uma circular, proibindo o comércio de escravos!”.


"Comércio de escravos! No Acre! No Brasil! Em 1905! – A coisa é tão inesperada, tão extravagante, tão monstruosa, que parece um gracejo de mau gosto, invenção satânica de algum espírito perverso. Mas, não! O caso é real! No Acre, vendem-se e compram-se homens como mercadoria! Num ponto do Brasil, num trecho da grande pátria livre, há um mercado de carne humana! E é a primeira autoridade do lugar, é o prefeito quem reconhece o crime hediondo, proibindo, em circular oficial, o tráfico infamante!" (p. 346)


Nessa mesma linha, “Escravidão nos seringais” (28.10.1908) apresenta a sina dos “escravos da borracha” no início do século passado na Amazônia. Nessa crônica, Olavo Bilac noticia o uso de palmatórias nos seringais. E aqui Bilac está de braços dados com a denúncia feita por Euclides da Cunha sobre a situação desses trabalhadores naquelas plagas:


"É uma chaga hedionda que se descobre. Ainda não há muito tempo, em artigos publicados no Jornal do Comércio, Euclides da Cunha descreveu a miséria da condição dos seringueiros, engajados no seio das populações famintas do Norte, seduzidos com promessas ridentes, e explorados pelos feitores: quando, ultimada a colheita da borracha, os trabalhadores pedem o encontro das contas, é sempre o empreiteiro quem tem saldo a seu favor; fornecendo comida, roupa e ferramentas ao operário, o feitor sempre reserva para si a parte do leão, - de modo que escraviza pela dívida o devedor, - dando-lhe a escolher estas duas pontas de um dilema feroz: ou a continuação do trabalho sem salário, ou abandono, a fome, a miséria, a morte no meio do deserto.

Mas nem todos os explorados se resignam imediatamente ao cativeiro: alguns protestam. E é então que entra em cena a palmatória, acompanhada e secundada talvez pelo vergalho e pelo “tronco”... (p. 488)


Ainda sobre escravidão, em “Siô Benedito e Siá Belmira” (27.07.1905), Bilac relembra o caso de ex-escravos africanos que escravizavam outros negros: “Naquele tempo, eu não compreendia como um preto, que fora cativo, tinha a coragem de escravizar e torturar os seus irmãos infelizes...” (p. 352). As crônicas de Registro despertam profundas contradições de nosso processo de construção histórica.


A leveza da crônica de Bilac não foge à possibilidade do humor por meio da ironia. Em “Profissões extraordinárias” (24.01.1908), relata o surgimento de profissões extravagantes, muitas das quais caracterizadas por aproveitadores de muita má-fé, como no seguinte episódio:


"No Rio de Janeiro, há poucos anos, com o aparecimento da peste bubônica coincidiu a invenção de uma nova indústria, - a dos criadores e importadores de ratos. A Diretoria de Saúde anunciou que pagaria trezentos réis a qualquer pessoa que lhe apresentasse, vivo ou morto, um desse ladinos roedores, transmissores perversos da peste. Saíram a campo os caçadores; e em pouco tempo foi consumido todo o stock das ratoeiras nas lojas de ferragens. Mas alguns homens espertos quiseram ampliar o negócio; e estabeleceram em casa viveiros de ratos, e, além disso, começaram a importar do Estado do Rio os animais preciosos...

A Diretoria de Saúde viu-se tonta! Toada a rataria do mundo parecia ter invadido o Rio de Janeiro! Os ratos chegavam aos milheiros, em sacos, em cestos, em carroças! Afinal, foi descoberta a tratantada, e suspendeu-se o comércio..." (p. 456)


Muitos são os temas que se desenrolam nas centenas de crônicas de Bilac, mesmo que Álvaro Simões Jr. tenha selecionado segundo critério ressaltado no início dessa crítica. Os caminhos da modernização e desenvolvimento da cidade do Rio de Janeiro podem ser sentidos no incentivo do cronista à comercialização de automóveis (“Isenção de impostos para automóveis”, 26.09.1905) ou na campanha insistente a favor da educação pública e do combate ao analfabetismo (“Literatura e analfabetismo”, 13.11.1905; “Analfabetismo e segurança nacional”, 26.02.1904).


A vida cultura não poderia ficar à margem dessa breve crítica a Registro. Bilac nos auxilia no entendimento do quadro da literatura e dos leitores em um “País de analfabetos” (11.02.1903): “Pobre país, habitado por oito ou dez milhões de analfabetos! Como é que há de haver literatura, como é que há de haver arte no teu seio?” (171) Nesse sentido, outra crônica elucida o problema: “O Brasil não lê” (04.12.1903). Ao lado dessa constatação, pode-se alinhar sua severa crítica ao academicismo literário brasileiro em “Academias estaduais” (11.04.1907):


"É lícito esperar que, daqui a dez anos, não haverá, nesta extensíssima terra de oito milhões e quatrocentos mil quilômetros quadrados, um só quilômetro quadrado que não possua a sua Academia de Letras.

Seria talvez melhor que em cada um desses quilômetros quadrados houvesse uma escola primária... Mas, enfim, quem não tem o que quer, contenta-se com o que tem. Um homem pode perfeitamente ser homem de letras sem saber ler e escrever. Há muitos exemplos disso!"


No centro da vida cultural, o jornalista Bilac registra o surgimento de “Associação dos jornalistas” (31.10.1905), para fortalecer as vantagens da associação dos profissionais do jornalismo. Tempos depois, em “Fonocinematogazeta” (15.05.1908), escreve sobre o futuro do jornal impresso:


"Decididamente, estão contados os nossos dias, ó cronistas, escritores de artigos de fundo, noticiaristas, e mais operários do jornal escrito! Já se anuncia, bem perto, o jornal do futuro, falado e cinematografado, entrando rapidamente pelos olhos e pelos ouvidos, graças à ação combinada dos fonógrafos e das fitas do Pathé.” (p. 471-472)


Vários escritores aparecem, volta e meia, nas crônicas, como para fortalecer uma visão de sistema literário nacional que se instalava mais fortemente a partir do século 19. Figuras como as de Antônio Vieira, Gregório de Matos, Gonçalves Dias, Aluísio Azevedo, Artur Azevedo, Odorico Mendes, João do Rio, dialogam ou ajudam a construir o discurso do cronista Bilac. Para contemplar esse aspecto, não se poderia fechar essa breve análise crítica de Registro, sem um excerto de crônica escrita a respeito da morte de Machado de Assis:


"Não me é possível dizer agora, neste momento em que a notícia da morte de Machado de Assis me acabrunha, o que sinto e o que penso desse homem raro, e talvez único, que foi uma esfinge para muita gente. E dizê-lo, para quê? Que palavras de entusiasmo ou carinho podem aumentar a glória desse nome sem igual, que fica sendo a mais pura tradição da nossa vida literária?" (29.09.1908, p. 481)


Bilac fez de “Registro” sua crônica diária e, acima de tudo, um diário muito pessoal: “Este Registro foi sempre o meu ‘diário’, todos os dias aberto, todos os dias escrito, fixando as impressões dos meus olhos, do meu espírito, da minha inquieta curiosidade. {...}” (“Despedida”, 09.04.1904).


Esse apanhado de crônicas de Bilac, em Registro, proporciona aos leitores brasileiros uma amplificação da atuação do poeta em seu tempo, especialmente como homem da imprensa, capaz de opinar sobre as mais diversas questões da vida, mesmo que a partir da ótica carioca e com tantas flagrantes contradições em seu discurso.


A visão sobre a profundidade do trabalho do professor e pesquisador Alvaro Santos Simões Jr. pode ser ampliado pelo leitor interessado com o auxílio da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional (http://bndigital.bn.gov.br/hemeroteca-digital/), que disponibiliza muitos números - senão todos - do jornal vespertino A Notícia, incluindo os correspondentes ao período da pesquisa de Simões Jr. As crônicas de Bilac, diárias na coluna “Registro”, estão na segunda página do jornal.


A leitura cronológica auxilia na observação do principal objetivo de Álvaro Simões nessa seleta das crônicas de Bilac em A Notícia, isto é, o de observar a capital carioca em seu processo dialético de modernização durante a chamada Belle époque.


Todavia, ao leitor interessado em desvendar o pulso de cronista do poeta Olavo Bilac, é possível uma leitura por temas (com ajuda dos índices ao final da obra), ou avulsa, ao acaso, o que talvez poderá surpreender ainda mais o leitor.


Em outra instância, essa obra publicada pela Editora da Unicamp auxilia a configurar melhor o quadro de cronistas brasileiros responsáveis pela constituição desse gênero, presente até os dias de hoje nas páginas dos jornais brasileiros.


A historiografia literária brasileira só tem a louvar o trabalho empreendido por Álvaro Simões Jr. Oxalá outros trabalhos possam desfraldar tesouros perdidos de nossa literatura no mar dos periódicos antigos, o que contribuiria sobremaneira para uma visão ainda mais completa e complexa de nosso espírito literário, que diz bastante sobre o nosso sentido de nacionalidade.


Não me considero um bilac-ano, muito menos um profundo admirador de sua poesia. Não obstante, sua prosa como cronista contribui fartamente para o registro de um largo período de nossa história, no início de um século de modernização das cidades, de mudanças consideráveis na face do mundo, com a primeira guerra mundial e a Revolução de 1917. Bilac, em Registro, não chega a tanto, porque seu período como cronista dessa coluna se situa apenas entre 1900 e 1908. Mas esta obra reforça em mim o desejo de ler o cronista Olavo Bilac sob novo ângulo e, quem sabe, na busca de crônicas da sua última década de vida – se é que existem -, em suas reflexões sobre os avanços de nossa recém-instituída República, bem como de outras viagens por ventura empreendidas pelo jornalista.


Uma certeza fica ao final da leitura. É preciso ler e reler o cronista Olavo Bilac. É um dos grandes cronistas do Brasil - com a licença dos superlativos, em certas ocasiões tão vazios de significados... É preciso redescobrir suas crônicas, como forma de redescobrir histórica e literariamente o Brasil.



{} Rafael Voigt, editor da {voz da literatura}, é doutor em literatura pela UnB.

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