CINEMA | O elefante e a cadeira elétrica

por Paulo Roberto Barbosa


{cena do filme Eletrocuting an elephant}

Eletrocuting an elephant (Edwin S. Porter e James B. Smith) é um curioso filme de 1903, rodado pela Cia. Edison. Composto de dois quadros, abre com um elefante conduzido para fora de um parque de diversões. Topsy matara a patadas seu treinador e outras duas pessoas sendo por isso condenado à pena capital. No segundo quadro, o paquiderme posta-se numa plataforma para ser fulminado por uma descarga de três mil volts, observado por multidão histérica. Eletrocuting an elephant termina com Topsy tombado, em meio a rolos de fumaça. Sinistro, o filme pode parecer um alerta para que elefantes malvados não saiam por aí matando treinadores inocentes. Originalmente, contudo, consistiu em mais um round na briga entre Thomas Edison e George Westinghouse pelo fornecimento de energia elétrica nos Estados Unidos, ao início do século XX.


Desde fins do século XIX, a General Electric (GE), empresa de Edison, dominava a distribuição de eletricidade nos EUA. O fornecimento era feito por meio da corrente contínua, sistema em que a corrente elétrica flui, em sentido único, até seu destino final. Pouco eficiente, o provimento de eletricidade por este método implicava imensa dispersão de energia, além de demandar a construção de um gerador a cada quilômetro para o abastecimento das casas. Para resolver esses problemas, o inventor croata Nikola Tesla (ex-funcionário de Edison), patenteou, em 1887, um sistema denominado corrente alternada, capaz de distribuir a energia de maneira mais eficaz. Por esse método, a corrente elétrica revertia a sua direção a intervalos regulares nos cabos elétricos, permitindo que os elétrons percorressem grandes distâncias, numa viagem de ida e volta, com perda mínima de energia ao longo do caminho.


Em 1887 o empresário George Westinghouse comprou as patentes de Tesla, passando a fornecer eletricidade pela corrente alternada. A GE reagiu com uma campanha difamatória contra o sistema concorrente, espalhando informações falsas. Dizia, por exemplo, que a corrente alternada não era suficientemente segura, podendo eletrocutar pessoas. E para provar essa inverdade, promoveu uma demonstração pública num parque de Nova Jersey, ligando um gerador da White Westinghouse (WW) a uma plataforma de metal, na qual passou a executar gatos, cachorros e outros animais. As execuções eram noticiadas pela imprensa, disseminando desconfiança em relação à WW. A disputa entre as duas empresas acirrou-se ainda mais pelo início do novo século, quando ocorreu um debate público sobre que sistema seria mais adequado à eletrocução de condenados à morte, em substituição aos tradicionais enforcamentos.


Em 1888, o estado de Nova York adotava a pena máxima por eletrocução como método oficial de suas execuções. Restava saber que sistema seria utilizado para essas eletrocuções, se a corrente contínua ou a corrente alternada. Montou-se então um comitê governamental para examinar a questão. Influente, Edison manobrou a fim de que a corrente alternada fosse a escolhida para abastecer as cadeiras elétricas de Nova York. A intenção do empresário era carrear associações negativas à WW, pespegando-lhe a pecha de insegura para os seres humanos. Presidido por um dos técnicos de Edison, o comitê terminou por apontar a corrente contínua como fornecedora oficial de eletricidade para as penas sumárias naquele estado. À WW não restou senão acatar a decisão, conquistando para si o horror da população nova-iorquina.


As escaramuças entre a GE e a WW estenderam-se pela primeira década do século XX, e, em 1903, Edison ainda disparava petardos contra a corrente alternada. A execução do elefante Topsy constituiu mais um golpe do empresário para tentar assegurar-se o monopólio da exploração de energia elétrica nos EUA. Grandes plateias acorreram às projeções de Eletrocuting an elephant, filme que logrou ótimos resultados como propaganda negativa contra o sistema inventado por Tesla. Não obstante os ataques de Edison, a corrente alternada venceu a batalha tecnológica, provando-se o método mais barato e seguro para prover de energia elétrica as metrópoles modernas. Pior para o pobre Topsy, que, no fogo cruzado entre os dois sistemas, morreu esturricado, quando poderia tão-somente ter sido recolhido a um zoológico.


{n. 4 | agosto | 2018}




{ PAULO ROBERTO BARBOSA é professor de Artes Visuais na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Autor de Crônicas do cinematógrafo: escritos sobre cinema e fotografia (Relicário, 2018).}











{} Crônicas do cinematógrafo: escritos sobre Cinema e Fotografia

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Paulo Roberto Barbosa

Relicário

2018







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