De Homens e de Ratos: uma leitura de Os ratos, de Dyonélio Machado

MAURÍCIO SILVA

{Pós-doutor em Letras pela USP e Professor na Universidade Nove de Julho.}

Dizem os especialistas que o vocábulo rato tem origem etimológica desconhecida, embora já se tivesse manifestado desde o século XIV. O que talvez nem todos os filólogos e lexicógrafos sabem é que com Dyonélio Machado, tal vocábulo adquiriu, sem dúvida alguma, uma nova conotação, uma acepção existencial, no sentido que, para o escritor gaúcho, o homem é o rato.


Dyonélio Machado (1895-1985)

Em um dos romances mais importantes da segunda geração modernista brasileira - Os ratos (1935) -, Dyonélio Machado revela-nos a mais ínfima condição humana, que se dá, entre outras coisas, pela exploração e pela opressão, aproximando dois seres tão distantes. E um in­termediário relevante, nessa equação que parece não fechar, não pode ser esquecido: o dinheiro, "mediador" das conquistas e das falências humanas, por meio do qual um indivíduo decai ao mais sórdido e humi­lhante grau da miséria social e existencial.


A busca pelo dinheiro, portanto, torna-se, desde o início, tema recorrente do romance: durante todo o desenrolar da história, Naziazeno, o protagonista, percorre uma verda­deira via crucis à procura de recursos para saldar a dívida com o leiteiro, recorrendo ao diretor da empresa em que traba­lha; a Andrade e Mister Rees, via Alcides; ao Doutor Otávio Conti (dinheiro para o almoço); ao cassino clandes­tino; e a muitos outros expedientes, culminando com a tentativa de venda do anel de Alcides, o que torna essa sua perigrinatio mundana absur­damente angustiante, quase surrealista.


Mais psicológico do que social, Os Ratos re­vela-nos o drama existencial de um pobre funcionário de uma re­partição qualquer em busca de recursos para o sustento da família. Empregando o fluxo de consciência e o monólogo in­terior, é um romance de introspecção, tal como seria Graci­liano Ramos, antes, e Clarice Lispector, depois. Sobretudo, introspectivo. Porque Naziazeno é perseguido por sua própria mente, que reproduz - de forma constante e ameaçadora - a figura fantasmagórica do leiteiro.


O resultado de semelhante condição é flagrante: angústia e, principalmente, solidão. Solidão diante de um mundo habitado por seres preocupados apenas consigo mesmo, excessivamente individualistas, o que obriga Naziazeno a um constante exercício de introspecção, até atingir a con­dição mais solitária: "E pela segunda vez, nessa manhã, a impressão da solidão, do abandono...", diz o protagonista em passagem agônica.


Trata-se, sem dúvida nenhuma, de uma romance marcado para preencher um espaço distinto na nossa historiografia literária. Um espaço, contudo, em que não cabe nenhum outro romance do autor, já que se trata de uma obra que destoa, em muitos sentidos, de seu romance imediatamente posterior, O Louco de Cati (1942), romance mais cerebral e de linguagem pouco fluida. De qualquer maneira, os supostos "defeitos" verificados neste outro romance não retira de seu autor o lugar conquistado na literatura nacional, com uma obra insuperável e que já assinala nossa história literária como um marco de originalidade e criatividade artísticas.

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