CRÍTICA | Astrid Cabral e a Zoopoética

Atualizado: 10 de Ago de 2018

por Rafael Voigt



Jaula {poesia} | Astrid Cabral | Ed. Penalux | 2017

Astrid Cabral é uma das mais longevas poetisas brasileiras. Há mais de 50 anos vem publicando prosa e poesia, aliando, em parte dessa trajetória, seu trabalho como professora de literatura e na diplomacia brasileira.


Em Jaula, à guisa de prefácio, Astrid revela o que motivou essa antologia poética: “{...} a natureza telúrica e panteísta, resultante de sua vivência amazônica.” Segundo a autora, há uma marcante presença de animais em sua obra.


Astrid não explica o sentido atribuído ao título dessa antologia. Daí, logo nos perdemos em diferentes possibilidades interpretativas, até mesmo ao considerar jaula como metáfora para a literatura e, mais precisamente, no caso de Astrid, para um livro de poesia.


Da jaula poética de Astrid, salta aos olhos na construção de sua imagética os animais, plantas e outros elementos da natureza, como a desvelar o sentido mais primordial de qualquer fazer literário. Indubitavelmente, Jaula traz à tona como o homem buscou, em seus tempos primordiais, a metáfora in natura, como marco inicial do fazer poético ou da descoberta da linguagem.


Desde seu livro de contos Alameda {1963}, obra prenhe de linguagem poética bem lapidada, Astrid interessa-se por penetrar no universo recôndito dos personagens da natureza. São eles que confrontam o ser humano, ao nos espreitar de ambientes domésticos, matas, rios, céus e, claro, da imaginação do poeta. Estão, por assim dizer, a nos encarar, invitando-nos para um diálogo. A autora de Jaula aceita o convite e, como em uma epifania, escolhe a língua da poesia para esse diálogo.


Da Jaula, emergem animais dos mais diversos, assomando, às vezes, sentimentos tétricos, medonhos, no leitor, como se por esse viés o leitor retomasse sua humanidade, ao descobrir em si os efeitos do poético, como a colocá-lo diante não de uma jaula, mas de um bestiário.


Logo de início, o leitor se depara com a ferocidade humana (“Nome aos bois”), bem como com o bestiário dos circos romanos em “Cave canem”: “Dentro de mim há cachorros/que uivam em horas de raiva/contra as jaulas da cortesia/e as coleiras do bom senso” (p. 31).


Esse bestiário prossegue em “Bicho-de-sete-cabeças”: “À medida que envelheço/as sete cabeças do bicho/corto. Enfim o reconheço/íntimo de mim, meu próximo.” (p. 35)

Nesse primeiro momento da antologia de Astrid, é impossível não se lembrar de trabalhos relacionados a essa temática do bestiário em outros escritores, como Kafka, Karel Capek (A guerra das salamandras), Julio Cortázar (Bestiário), George Orwell (A revolução dos bichos) e Jorge Luis Borges (O livro dos seres imaginários). Em todos esses casos, há uma potência na metáfora animal para revelar o humano. E Astrid conduz o leitor nessa direção.


“Os búfalos”, “Parentesco”, “O boto no corpo”, “Boiúna”, “Igarapé das saúvas”, “Anfíbia, Perigo de jacaré”, “Pedra sapo”, “Tambaqui”, “Tartarugada”, “Penas”, recordam um universo bem amazônico referido pela escritora no prefácio da antologia. Como antecipado por Astrid, é inequívoca a presença de seu espírito amazônico nessa poética in natura. Em olhar comparativo, parece estar de mãos dadas com Manoel de Barros, não obstante as diferentes estéticas do fazer poético de cada um.


No poema “Anfíbia”, a voz poética se mistura ao dizer da tartaruga, em recurso de prosopopeia, em sua crítica aos espaços de confinamento no processo de domesticação dos animais. Ao mesmo tempo, revela o lugar do eu-poético de Astrid ao se animalizar para se humanizar:

{...}

Este é meu reino, penso aliviada

até que alguns adultos me aprisionam

no curral de uma sala encortinada

e então massacram meu pendor anfíbio

com sermões e censuras bem mesquinhas

e ameaçam com a voracidade e a fúria

de poraquês, piranhas, jacarés.

Tudo para que em terra firme pise

essa menina irmã de tartarugas

tão inquilina dos igarapés. (p. 62)


Nessa mesma toada, “Calopsita fugida” discute o anseio do humano em enjaular os pássaros, limitando sua liberdade e submetendo-os ao “estado de coisa”: “Por que se há de possuir/pássaros como objetos?/Por que reivindicar posse de quem a ninguém pertence?” (p. 77)


A mitologia amazônica de Astrid refunda a linguagem poética em seu espaço de brasilidade, assim como Manoel de Barros compunha seu lócus a partir dos pantanais mato-grossenses. Por essa vereda, examina-se que a poesia educa, como nos ensina Carlos Drummond e João Cabral pela semântica da “pedra”. No caso de Astrid, a educação é pela natureza em sentido amplo.


Em meio a esses poemas amazônicos, espreita-nos um olhar infantil ao abordar o enterro de um cachorro de estimação em “Adeus”. E vai além. Em “Perigo de Jacaré”, aparece essa voz poética, com os medos de ser engolida por um crocodiliano. Esse olhar infantil para as coisas do mundo reajusta a lente pela qual se perscruta a realidade da natureza, o que é, por vezes, bem mais revelador sobre o temário de Astrid. E isso se apresenta como mais um ponto de convergência com a filosofia poética de Manoel de Barros. Essa meninice aparece outras tantas vezes em Jaula, como em “O dragão domado”, em que se expande a imaginação infantil: “Tive em menina um dragão chinês/que se hospedava no vão das moitas/habitando a noite do meu jardim” (p. 69). “Oceanário do céu” transporta o leitor para a possibilidade do simples imaginar dos animais registrados na escrita celeste das nuvens.


“Memória de elefante” envereda por um estudo histórico do papel do elefante em diversas etapas das civilizações orientais e ocidentais. Mesmo nesse poema, é o olhar da criança que merece o lugar de maior relevo, para enxergar o verdadeiro valor do elefante para o homem, desfazendo qualquer intenção exploratória: “Esses elefantes, só mesmo as crianças/para aceitarem a diferença tanta:/o corpanzil pesado, a tromba-mão/o rabo fino, orelhas de cortina/a imagem tão fora das normas! elas,/sim, podem rir sem crítica e olhar/sem susto o vazio das bocas banguelas.” (p. 82)


“Encontro no jardim” revela a técnica da poesia visual e do ritmo dado ao rastejar do corpo de um réptil. Essa visualidade encontra-se em outros momentos, com menor ou maior intensidade, para a estética de Astrid: “Cavalos de sonho”, “O polvo e eu” e “Baleia albina”.


Nas várias perspectivas da “zoopoética” de Astrid, há lugar para o aceso debate sobre os hábitos alimentares do canibalismo humano, em seus laivos de crueldade: “E comíamos, granfinos canibais/ – de garfo e faca –/em pratos de porcelana.” (Tartarugada, p. 68). Em “Capivara em Fatias”, revela-se o homem como predador: “Naquele almoço em Iguaba/deu-se então o habitual/encontro de espécies várias./Senti-me a vil predadora:/no prato a caça vencida/e eu com a presa na boca.” (p. 47). “Surdos e cegos” denuncia a hipocrisia de uma sociedade que mata bois em uma verdadeira indústria de carnificina e, simultaneamente, reclama da violência ao seu redor. Essa mesma voz segue em “Açougue”: “A mim, corta a afiada pergunta:/que fome tão feroz é essa/capaz de gerar o massacre/de mansos bois, tenras vitelas?/Que fome essa cujo repasto/implica o brutal holocausto?”. São poemas que implicam um comprometimento social com causas ambientais, mas que interpelam o status quo das selvagerias do reino hominal. É o que, em menor intensidade, se expõe em “O peixe”: “{...} Arcaico submarino por líquidos/destinos navega, o casco armado/de escamas a cortar o éden do mar/ungido de silêncio e de segredo/até que intruso, o anzol o sequestra/e arrasta ao tirano império do dia”.


Nessas diferentes tomadas sobre a dominação do humano sobre a natureza, “Miami metromover” discute com que força o homem ocupa o lugar que originalmente pertencia aos pombos (figura simbólica para a universalidade da natureza). Vê-se que a modernidade e o avanço civilizatório chegam ao preço de muita destruição. Nesse sentido, crimes ambientais sutis, como a do empalhamento de borboletas para virarem artigos comprados por turistas, são ressignificados em “Shopping em Copacabana”.


As marcas arqueológicas da natureza, como em “Sanduíche pré-histórico”, nos lembram que o homem busca, há longas eras, nos elementos naturais suas primeiras metáforas, seu primeiro mergulho no poético. Seu distanciamento desse estágio inicial significa um elo perdido da humanização. A poesia de Astrid Cabral quer, em alguma medida, ressignificar e reconstruir esse elo. “O beija-flor de Nazca” segue a mesma linhagem, ao reconhecer nos “geoglifos” um poema gigante, escrito nos sulcos desse território peruano.


Na diversidade de prismas poéticos da “ecoliteratura” de Astrid, “Pássaro morto” revela o eu-poético ocupado em digressões sobre a vida de pássaros após a vida carnal. Existiriam animais mortos a habitar o invisível?: “Em que invisível ar/estás a voar?” (p. 90). São questões metafísicas que, certamente, nos enlaçam novamente com as revelações inesperadas do fazer poético.


Astrid Cabral vai fundo. Quer penetrar na linguagem dos pássaros em “Passarês”: “Céus, são tantas as linguagens/que sempre me deixam à margem/cega ao que pássaros sabem.” (p. 92). Porque penetrar a língua dos pássaros denota o desejo de ir mais fundo na linguagem poética. Assim, em “Reordenação do mundo”, Astrid pratica uma ligação ainda mais estreita entre o reino animal e o reino do livro, do poema: “Ó traças,/raça cúmplice da via/com perspicácia/reconduzis páginas/às folhas primárias./A terra vos louva.” (p. 93). Traças como seres praticamente invisíveis consomem livros e os levam novamente a um dos estados iniciais do mundo e da poesia: à terra, ao pó.


No desfecho de Jaula, Astrid aproveita o conto “À sombra da papouleira”, publicado em sua obra de estreia Alameda {1963}. A alegoria e a fábula imanente a esse conto delineiam, por assim dizer, o ocaso dessa obra de diferentes matizes acerca do fazer poético mais originário, o de refletir o humano em sua condição primeva, o do próprio estado natural, silenciado tantas vezes ao nosso redor. A cartase que acompanha o leitor de Jaula lhe possibilita enxergar com novos olhos o grande livro (poético) da natureza.


Jaula, não resta dúvida, constitui uma boa introdução à poética de Astrid Cabral, em razão de seu caráter de antologia (embora possa ser considerada uma obra nova, pelo sábio arranjo dado à matéria poética). Ao adentrarmos na jaula poética de Astrid, estamos diante de uma poetisa com raro compromisso com o fazer poético, porquanto, dessa Jaula, revela-se, sobretudo, uma escritora com longo curso formativo pela natureza da literatura.




{Rafael Voigt, editor da revista {voz da literatura}, é doutor em literatura pela UnB. Autor de Os ciclos ficcionais da borracha e a formação de um memorial literário da Amazônia (2016)}

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