A literatura juvenil premiada na sala de aula da escola pública


por Danilo Fernandes Sampaio de Souza*




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No ambiente escolar, a todo momento, ouvimos afirmações que os estudantes não gostam de ler, bem como queixas por parte dos professores e da equipe escolar relacionadas ao grande desinteresse dos jovens pela leitura e literatura, principalmente por aquela oferecida pela escola. A sensação que temos é que, apesar de, nas últimas décadas, a discussão sobre o valor da leitura para a formação dos indivíduos e seu papel na sociedade contemporânea ter aumentado, a escola, instituição que carrega em nossa sociedade a maior responsabilidade no que se refere à formação do leitor, parece estar passos atrás, visto que “crise da leitura” é expressão corrente na fala de professores e profissionais ligados à educação. As pesquisadoras Rösing e Zilberman (2016), no livro Leitura: história e ensino, afirmam que houve uma especulação muito grande sobre o fim do livro e, consequentemente, sobre a morte da leitura, principalmente com o avanço das tecnologias de informação e comunicação. Salientam, ainda, que desde os anos 1980 “crise da leitura” era termo corrente no que se referia à escola e ao ensino de literatura. Para as autoras: “Talvez ele seja alarmista, talvez mereça um reposicionamento; de todo modo, cabe repensar o que queremos dizer, e sobretudo o que podemos fazer, quando falamos de ‘leitura’, de sua ‘crise’ e das alternativas de sua prática” (RÖSING; ZILBERMAN, 2016, p. 8). Diante das questões levantadas pelas autoras, cabe a nós pensarmos, hoje: quais textos e quais alternativas de trabalho pedagógico com o texto literário em sala de aula devem ser adotados, principalmente, nos Anos Finais do Ensino Fundamental?

Destacamos o trabalho com a leitura nos Anos Finais do Ensino Fundamental por acreditarmos que há um abismo no que se refere ao trabalho sistematizado com livros e leitura literária nessa etapa de ensino, assim como apontam as pesquisas de Corti e Souza (2005) e Ceccantini (2009), dentre outros autores. Se as crianças da Educação Infantil e dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental são incentivadas à leitura literária por meio de metodologias diversas e se os currículos e livros didáticos do Ensino Médio orientam um trabalho com os clássicos da Literatura Brasileira, há um abismo e um déficit muito grande no que se refere ao trabalho pedagógico com a leitura literária nos Anos Finais do Ensino fundamental. Tal etapa de ensino fica à mercê, na maioria das vezes, da leitura de contos e crônicas, reproduzidas no livro didático, porém sem um trabalho sistematizado com a leitura literária. Diante desse cenário, quais textos e livros podemos utilizar nessa etapa da educação básica, com vistas à formação do leitor literário? Julgamos que a literatura juvenil brasileira pode ser uma das mediadoras da leitura na escola e um diferencial na formação do jovem leitor. Apesar de ainda figurar à margem dos estudos e pesquisas acadêmicas e do interesse da crítica literária nacional, a literatura juvenil, em especial, a brasileira – entendida aqui como “[...]um ramo da literatura assim consignado por se dedicar a produzir obras tendo em vista um leitor mais ou menos idealizado, no caso, aquele situado na transição entre infância e juventude” (DALVI, 2014, p. 90) – é composta por um acervo rico, de qualidade atestada, entre outros meios, por prêmios específicos, a exemplo do Prêmio Jabuti, concedido pela Câmara Brasileira do Livro, e do Prêmio Orígenes Lessa – O Melhor Para o Jovem, outorgado Pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil desde 1979. Atualmente, consoante Ceccantini (2000) e Martha (2011), uma boa parte da literatura juvenil brasileira tem se mostrado de alta qualidade, discutindo temas plurais e de interesse do jovem no mundo contemporâneo, imerso em dúvidas, sentimentos e questões existenciais e sociais. Autores, por meio de técnicas mais complexas de narrar, inovam e renovam no âmbito da literatura juvenil, abordando temáticas variadas e por vezes consideradas sensíveis, a exemplo da morte, da violência, da sexualidade, da crise identitária, entre outros temas a partir do viés do jovem. No entanto, conforme aponta Ceccantini (2021), há um apagamento da literatura juvenil brasileira no rol de leitura dos jovens em nosso país – que é ocupado, precipuamente, por obras da cultura de massa, principalmente aquelas produzidas no eixo-norte global e traduzidas do inglês para dezenas de línguas simultaneamente. Tal fato nos leva a pensar que ainda é necessário um trabalho de várias instâncias para que as obras de qualidade da literatura juvenil nacional cheguem aos jovens, pois, como atesta Turchi (2006, p. 32), “(...) a qualidade dos livros de nada adianta sem leitores”. Apesar desse contexto adverso, apostamos na literatura juvenil brasileira de qualidade como mediadora na formação de jovens leitores e entendemos a importância dela para a educação literária e formação de leitores no Brasil, pois, como bem explicam Zilberman e Silva (2008), o texto literário é uma experiência rica e indispensável na formação do leitor, é uma atividade completa, estimuladora do diálogo, alargadora do conhecimento e que induz às práticas socializantes. Todavia, infelizmente, como apontam os autores, “raramente a escola se preocupa com a formação do leitor [literário]” (ZILBERMAN; SILVA, 2008, p. 52), privilegiando práticas pontuais e assistemáticas de leitura de textos literários. Temos ciência de que apostar na literatura juvenil brasileira como mediadora na formação do leitor literário na escola, em um país de escassa tradição letrada e intenso consumo dos meios de comunicação de massa, torna-se, por vezes, uma tarefa complexa e bastante trabalhosa. Isso porque, de um lado, há a ausência de recursos mínimos (a exemplo de livros, biblioteca, ou sala de leitura na escola com profissional bibliotecário, afora as próprias condições socioeconômicas de grande parte dos estudantes que, ainda muito jovens, têm que trabalhar formal ou informalmente para ajudar no sustento familiar); a sobrecarga docente, com pouco tempo para sua própria atividade de leitura, estudo e planejamento; a falta de incentivo da família; e o pouco interesse por parte do adolescente na leitura são barreiras no trabalho do professor. Do outro lado, a leitura concorre, ainda, com as tecnologias audiovisuais, redes sociais, bens de consumo e diversão que “fisgam” sobremaneira o adolescente, recebendo quase toda a sua atenção. Não obstante, a escola brasileira, em geral, pouco conhece a literatura juvenil, senão pelos catálogos (e pelo assédio) das editoras e, eventualmente, pelo material que é distribuído escassamente por programas públicos de composição de acervo. Logo, a tão falada crise da leitura é reflexo da crise da própria escola (Sarlo, 2005). Evidentemente, não se trata de má vontade ou indiferença dos profissionais da educação ou da instituição escolar de modo geral: a estrutura social extremamente desigual (inclusive no que diz respeito ao tempo livre necessário à leitura); a falta de acesso aos bens mínimos necessários para um percurso de escolarização de qualidade; a baixa remuneração e a ausência de políticas de formação continuada para os professores; a quase inexistência de bibliotecas atualizadas, bem equipadas e com profissionais especializados – enfim, tudo isso é que conjuntamente desenha este quadro, que acaba reforçando a ideia de que a escola não consegue fazer um bom trabalho na formação de leitores literários. Ou seja, a responsabilidade por essa propalada “crise da leitura” (que rebate na ideia de “crise da escola”) é coletiva e de toda a estrutura social, não apenas da comunidade escolar. Apesar do descompasso e das dificuldades nas relações entre jovens, leitura e escola, defendemos que a literatura juvenil brasileira – na ausência de estofo crítico de amplas parcelas da sociedade, pelo menos aquela premiada por instâncias reconhecidas por produtores, críticos e cientistas do campo – pode ser um caminho para a compreensão da realidade (inclusive aquela distante temporalmente e linguisticamente), para a formação crítica, a construção da subjetividade do jovem leitor, bem como para a elaboração (sofisticada) de sua identidade na sociedade de que participa. A leitura de obras de autores premiados nacional e internacionalmente como Lygia Bojunga Nunes, Ana Maria Machado, Marina Colasanti, Roger Mello e Ricardo Azevedo, ao lado de autores contemporâneos, a exemplo de Luís Dill, Caio Riter, João Anzanello Carrascoza, Ivan Jaf, Mario Teixeira, Gustavo Bernardo, Laura Bergallo, dentre outros autores, pode ajudar nessa tarefa. Portanto, no lugar de professor da educação básica e pesquisador, ressaltamos, mais uma vez, o potencial da literatura juvenil brasileira de qualidade na formação do jovem leitor, desde que o adolescente em processo de escolarização possa contar com um mediador (no caso, o professor e, eventualmente, o bibliotecário) mais experiente, portador dos signos culturais requeridos, e que o ajude a superar seu estranhamento inicial e sua dificuldade com a falta de repertório e com a própria linguagem literária. Essa literatura, por intermédio da mediação (e não apenas pela aquisição e distribuição de acervo), pode contribuir para a formação de leitores mais conscientes e críticos, compreendendo, cada vez mais, a si e a sociedade de que participam – o que é o primeiro