Uma breve história das mentiras fascistas

Por que os líderes fascistas acreditam em suas próprias mentiras? Essa talvez seja uma das grandes perguntas do livro “Uma breve história das mentiras fascistas”, de Federico Finchelstein, professor de História na New School for Social Research (Nova York). A resposta, contudo, não vem pronta, vai sendo construída ao longo dos dez capítulos do livro.


A mitomania dos fascistas não pretende apenas alcançar uma massa de inconscientes e inconsequentes políticos. O artifício da mentira permeia e alimenta o espírito de seus líderes. Eles encarnam a mentira. De acordo com Finchelstein, “no fascismo, a ficção deslocou à realidade e se tornou realidade”. (p.38)

O historiador Federico Finchelstein alinhava diversos argumentos para demonstrar de forma objetiva como o líder fascista encarna a figura de “mito” e por extensão toda a mitologia de sua ideologia. Nesse caso, mitologia significa todas as mentiras ou “nova realidade” dos fatos históricos e sociais criadas pelo líder para disseminar uma realidade a seu modo. Alguma semelhança com Bolsonaro? Ele é chamado de “mito” por sua legião de adoradores, incensado rapidamente como a encarnação do que no fascismo contemporâneo à brasileira tem outro nome: “bolsonarismo”. Manipular a história, subverter fatos, disseminar as chamadas fake news, são estratégias de mais uma versão do fascismo à brasileira, vestido de aparência de um “populismo democrático”.

Finchelstein avança, para nos fazer ver que no uso de Deus por parte dos fascistas é um sinal de alerta. Hitler, por exemplo, escreveu “(...) defendendo-me contra o judeu, estou lutando pela obra de Deus”. Em um governo contemporâneo de inspiração fascista, o inimigo não precisa ser exatamente o judeu. O antissemitismo não precisa ser o centro de uma política de horror e extermínio. O alvo pode ser outra etnia, outra raça. O nacionalismo presente no lema “O Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” merece uma análise permanente. Como a religião intervém nas políticas de estado? Esse Deus pretende ser um mito encarnado em seu líder? Quais ações supostamente “morais” ele referenda como determinantes para o futuro da nação?

Nesse passo, Finchelstein analisa frases como “Mussolini está sempre certo”, repetida à exaustão pelos fascistas italianos. O historiador explica essa verdade única estampada no líder por meio de uma frase de Freud: “A mentira do mito heroico culmina na deificação do herói”. Mitos como Mussolini e Hitler e seus similares em outras partes do mundo foram referendados por pensadores ou partidários do fascismo, como Ernesto Caballero (Espanha), José F. Uriburu (Argentina), Silvio Villegas (Colômbia), Plinio Salgado (Brasil). Freud recebe de Finchelstein boa atenção, principalmente sobre o que o fascismo compreende como inconsciente. Nessa mesma direção, o historiador se aproveita de vasta bibliografia antifascista, em que aparecem Hannah Arendt, José Carlos Mariátegui, Theodor Adorno, Max Horkheimer, Ernst Cassirer, Jorge Luis Borges.

No penúltimo capítulo, Finchelstein explora uma das maiores mentiras fascistas: a de que a ditadura é a melhor forma de democracia. Por aí é que a ideologia totalitária é levada aos extremos da fé cega por todos seus adeptos. Costumam fazer cortina de fumaça e atribuir a “outro” o mal da democracia corrompida ou do perigo de uma ditadura, como os nazistas contra os judeus, os fascistas contra os comunistas. Defende-se a ferro e fogo o totalitarismo como forma legítima de democracia. O fascismo seria, assim, a “ditadura democrática”. Segundo o autor, outro ponto fundamental nessa esteira é o corporativismo, como elemento da ideologia fascista, para a legitimação do ditador.

Como bem acentua Finchelstein , é prudente relembrar que Jair Bolsonaro em 2019 pretendeu celebrar oficialmente o golpe de 1964. Entre outras mentiras, afirmou que a democracia havia sido estabelecida pela ditadura. Bolsonaro, além de admirador e devoto do coronel Brilhante Ustra, um dos maiores torturadores no governo militar, já teceu elogios ao ditador chileno Pinochet, ao paraguaio Alfredo Strossner. De fato, o atual presidente do Brasil desvirtua a história e a converte em mentira travestida de “mitos”.

No último capítulo, ainda de retorno ao porquê de os líderes fascistas depositarem convicção em suas mentiras, Finchelstein comenta que a “(...) a autoconsciência fascista levou à equação poder, verdade e violência.” (p. 127)

Ao refletir sobre a relação entre o populismo e o fascismo na contemporaneidade, Finchelstein realiza percuciente análise do trumpismo. E veja só que prognóstico presente neste trecho: “As falsidades sobre a extensão das fraudes sempre que o presidente não apreciou os resultados eleitorais são cruciais para essa história trumpista da mentira.” O historiador menciona as eleições estadunidenses de 2016, mas a assertiva também se aplica a 2020. Resta evidente que as eleições livres são só um dos poucos traços distintivos entre populismo e fascismo no que tange à legitimação do “líder”.

Apesar da derrota de Trump nas eleições presidenciais de 2020 nos EUA e um visível encolhimento da influência de Bolsonaro nas eleições municipais no Brasil, o fantasma do fascismo que anima o populismo “democrático” encarnado por Trump e Bolsonaro continua à espreita. Esse cenário reforça a necessidade de leituras de obras como “Uma breve história das mentiras fascistas”.


RAFAEL VOIGT, editor da revista {voz da literatura}.

FINCHELSTEIN, Federico. Uma breve história das mentiras fascistas. Tradução de Mauro Pinheiro. 1. ed. São Paulo: Vestígio, 2020. p. 188.

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