Um perigo chamado Adília Lopes

RESENHA: Um jogo bastante perigoso. Adília Lopes. Editora Moinhos, 2018. 56p.


por Isa de Oliveira*


A poesia portuguesa tem me inspirado, sobretudo surpreendido, com sua poética visceral desde 2012. Especialmente os modernos e contemporâneos como Herberto Helder (1930 -2018), Luís Miguel Nava (1957 - 1995), José Régio (1901 - 1969), Ruy Belo (1933 - 1978) e as mulheres Sophia de Mello Breyner Andresen (1919 - 2004), Fiama Hasse Pais Brandão (1938 - 2007), Ana Hatherly (1929 - 2015) e não podia ficar de fora a mais recente descoberta dessa que vos escreve, Adília Lopes (1960 - ).


Sobre esta última, poetisa ainda entre nós, cujo nome verdadeiro por trás de seu pseudônimo literário é Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira, lisboeta, formada em letras, tradutora, colaboradora com publicações em jornais e revistas em Portugal e países estrangeiros. Um jogo bastante perigoso é seu primeiro livro de poesia, publicado em 1985 e a editora Moinhos traz pela primeira vez ao Brasil em uma edição integral. Com texto de Valter Hugo Mãe na quarta capa, o escritor nos incita a conhecer a Adília, persona esta que nunca conseguiremos ver pessoalmente com facilidade, como descreve o prefácio de Adelaide Ivánova. Para Valter Hugo, esse livro será capaz de nos fazer rever nossos conceitos sobre poesia.


Tenhamos o cuidado ao ler a poesia de Adília, pois a mesma quando começou seus escritos poéticos percebeu que “muito está em risco quando se escreve poesia.” Ou seja, podemos notar que a poesia já representa um perigo, jogar com ela é correr riscos, de perder ou ganhar, e é isso que a poesia tem feito comigo há anos, jogado com as minhas certezas e incertezas, me feito reavaliar minha postura poética, meu olhar sobre ela.


Na apresentação, “Quem é aquela garota?”, Adelaide Ivánova, revela sua saga em conhecer Adília que chega a comparar à Madonna. É tão difícil desvendar os mistérios por trás do nome artístico, e mais ainda sua poesia. Para Ivánova, ler Adília é quase uma “charada que nunca nos é posta”, tão difícil de se vê e descobrir seus paradeiros, quanto os poetas de mesma fama reclusiva como Herberto Helder foi. Ao final ela brinca que tudo que é perigoso é mais emocionante, torna-se precioso, inesquecível, um trocadilho com o título da obra.


Entre metalinguagens como o poema “Arte Poética” e diálogos com a poesia de Fernando Pessoa, em seu heterônimo Mário de Sá-Carneiro, Adília mergulha em águas profundas da poesia portuguesa, tanto a poesia moderna quanto a clássica de Camões. O leitor atento irá captar esses diálogos que ela traça e nos deixa a pairar em dúvidas sobre as metáforas que utiliza em suas referências literárias.


Será que devemos conhecer Adília primeiro por seus antepassados literários da tradição portuguesa? É nesse ponto que percebo que a poeta resgata suas leituras, suas memórias literárias, ela brinca com os autores que conheceu e essa brincadeira requer do leitor que busque conhecer a Adília por trás do texto e não a pessoa.


Adília Lopes

A poetisa utiliza de um jogo de linguagens para transitar entre as personas real e fictícia. Ao vestir-se do pseudônimo Adília, ela se faz personagem de alguns poemas em que brinca com a realidade, com as coisas cotidianas.


Adília é estranhamente curiosa pela sua capacidade de utilizar uma linguagem simples o que atrai o leitor, até mesmo o menos crítico, mas a complexidade de sua poética é tentar compreender o que ela revela.


Não nos cabe aproximar de Maria José da Silva Fidalgo, pois ela mesma não se permite as aproximações com pessoas, já que nos avisa que só gosta de pessoas boas, se você tem outros interesses, não ouse, vá atrás apenas de Adília, ela se permite ser publicada, lida, resenhada, estudada e conhecida.


No Brasil, temos a alegria de ter Adília Lopes relançada em dois títulos pela editora Moinhos, Um jogo bastante perigoso e O Poeta de Pondichéry.

Então ler Adília é bastante perigoso... o tiro será certeiro.


* Isa de Oliveira é doutoranda e mestre em Estudos de Linguagens, revisora, resenhista e crítica, produtora de conteúdo do bookstagram @corujadasletras, poeta e escritora, autora de Intermitências (Crivo Editorial, 2019). Colaboradora dos sites LiteraturaBr e do UniversoHQ. Mais informações: https://linktr.ee/corujadasletras

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