Triângulo quase amoroso

por Adriano Besen*


Eu gostava da Liliane. A Liliane gostava da Andressa; e a Andressa gostava de mim. Um não sabia do sentimento do outro e nenhum de nós três tinha coragem para se declarar. Estudávamos na mesma escola; na mesma sala. A Liliane andava sempre com a Andressa, eram melhores amigas. Andressa não sabia dos sentimentos apaixonados de Liliane para com ela. Já eu, seguia as duas para todos os lados; eu queria estar sempre perto da Liliane, que não dava a mínima importância para mim.


Em um impulso audacioso, escrevi uma carta revelando o meu amor por Liliane. Na hora do intervalo do recreio, entrei escondido na sala de aula pela janela e coloquei a carta dentro de um dos cadernos da Liliane, para que ela encontrasse. Alguns minutos depois, quando soou o alarme que anunciava o termino do recreio, todos os alunos retornaram para as suas salas. Eu estava ansioso para saber qual seria a reação da Liliane quando descobrisse a carta apaixonada que deixei nas coisas dela. Minha atitude foi corajosa, mas extremamente arriscada. Mas, eu estava confiante.


A sala estava como sempre cheia de alunos. A professora escrevia algo no quadro negro, quando de repente, Liliane se levantou da sua cadeira com a minha carta na mão, e na frente de toda a classe olhou para mim com ódio e me perguntou quase gritando se por acaso eu era algum retardado. Gelei de vergonha e o meu mundo desabou. O chão se desfez sob os meus pés. Todos na sala me olharam arregalados, e em seguida a turma toda riu da minha cara; foi um coral de gargalhadas.


A Liliane me expôs. Ela me humilhou e me envergonhou. Não contente, ela se queixou para a professora, reclamando que eu havia deixado uma cartinha de amor dentro do caderno dela. E lá veio mais uma onda de gargalhadas da turma. Eu estava me sentindo um criminoso pego em flagrante. A professora, percebendo o meu colossal constrangimento, fez de conta que não se importava com aquele assunto e mandou que Liliane se sentasse, chamando atenção para o que estava escrevendo no quadro negro. Porém, Liliane ainda incomodada ou inconformada, virou-se para trás e me olhando com nojo, me disse que não gostava de mim; e lá veio mais uma saraivada de gargalhadas da turma.


Naquele dia eu aprendi o que era ter um coração partido. Meus sentimentos foram cruelmente pulverizados por aquele ataque fulminante. No dia seguinte, em casa, eu quase não encontrava forças e coragem de ir para a escola. Não seria nem um pouco divertido rever os meus colegas, e principalmente, encarar a fria e insensível Liliane. Mesmo assim, acabei indo para escola, pois eu não podia perder aula. Para meu alívio, parecia que todos tinham esquecido o episódio da carta, inclusive a própria Liliane.


O interessante é que o destino resolveu “jogar” e aquela história começou a mudar. Poucos dias depois do esculacho da Liliane em cima de mim, algo bem inusitado aconteceu. Alguém colocou um bilhete anônimo dentro da minha mochila. O bilhete me fazia uma curiosa revelação; ele dizia que a Liliane era apaixonada pela Andressa e que a Andressa era apaixonada por mim. Aquela valiosa informação me trouxe a possibilidade de dar uma lição na cruel Liliane. Era a minha chance de vingança; o amor tem dessas coisas e o mesmo coice que eu levei, a Liliane levaria de volta.


Ainda naquela semana, fiquei com a Andressa na escola; a gente se beijava na frente da Liliane, que nitidamente detestava o que assistia. O que eu fiz não foi nada correto. Usei a amável Andressa, que era apaixonada por mim, para “dar o troco” na Liliane. Hoje compreendo a situação e me arrependo totalmente. Deveria ter seguido em frente e deixado o orgulho de lado, mas quando a gente é jovem, não pensa direito. É preciso respeitar as pessoas, seus sentimentos, suas escolhas e decisões. A humildade é o primeiro degrau da evolução humana e social.


No final, eu não fiquei com a Liliane; ela não ficou com a Andressa, e a Andressa não ficou comigo. Aquele triângulo quase amoroso foi uma grande experiência, um rico aprendizado para a vida de nós três. É com erros e acertos que as pessoas se tornam mais forte. As coisas do coração são sempre complicadas; principalmente na adolescência. A vida é o verdadeiro mestre e todos nós somos os teimosos alunos.


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ADRIANO BESEN, natural de Florianópolis (Santa Catarina). Autor do livro infantil A história de uma galinha. Foi colunista do jornal O Tropeiro. Publicado em Antologias, revistas, jornais, blogs e sites. Escritor e Músico. Pesquisador e Aventureiro.

Contador de histórias. Apaixonado por livros.