Quéreas e Calírroe

Atualizado: Nov 10

Escrito no século I d. C por Cáriton de Afrodísias, Quéreas e Calírroe é, provavelmente, o arquétipo dos romances de história de amor.


O amor à primeira vista, a beleza dos jovens amantes, as peripécias, as aventuras, as reviravoltas e o final feliz são componentes que fazem essa narrativa encontrar paralelo com o romance-folhetim.

Na Grécia Antiga, o romance não foi o gênero literário dos mais admirados. Daí talvez o fato de ainda pouco conhecermos os romances produzidos pelos gregos. O que não acorre em relação a outros gêneros cultivados com mais profusamente por aquela civilização, como a epopeia, a comédia, a tragédia.

Pouco se sabe a respeito do autor Cáriton de Afrodísias, a não ser do que se extrai do trecho em que ele se apresenta ao início da narrativa de Quéreas e Calírroe: “Eu, Cárito de Afrodísias, secretário do orador Atenágoras, vou narrar uma história de amor que aconteceu em Siracusa.”

Por se tratar de uma história de amor escrita na antiguidade grega, não falta em Quéreas e Calírroe a interferência, direta ou indireta, dos deuses, em particular de Afrodite e Eros. Em vários momentos, por exemplo, Calírroe é confundida com Afrodite, tal a sua beleza. Interessante como a Fortuna e o Rumor participam igualmente dos destinos da narrativa.

Outra participação do panteão grego vem de Homero. Há diversas passagens contendo referências a versos da Ilíada e da Odisseia. O que mostra a força da tradição homérica e de sua relevância na composição e legitimação literária de vários escritores gregos. Como “magna opera”, Ilíada e Odisseia estão na base do romance de Cáriton, que dialoga com a tradição homérica, em seus aspectos linguísticos, culturais e educativos, os quais são intransponíveis. Homero é, por assim dizer, um “deus da literatura”, que deve ser reverenciado.

Há boas confluências entre os protagonistas do romance de Cáriton e os personagens das epopeias homéricas, como se pode vislumbrar entre Calírroe e Helena ou entre Quéreas e Heitor. Essa ancoragem com a tradição homérica compõe as marcas distintivas dos personagens do romance Quéreas e Calírroe, para que a obra seja reconhecida e admirada pelo público.

Ainda na esfera dos personagens, observa-se como a narrativa se constrói pelas classes de maior destaque social. Quéreas é personagem que se constrói, apesar de alguns reveses, como a figura de um verdadeiro herói a lutar por seu grande amor, até mesmo comandando exércitos na guerra entre a Babilônia e o Egito. Não se pode deixar de mencionar como o povo, como espécie de “ personagem coletivo”, participa do casamento de Quéreas e Calírroe, bem como dos tribunais onde se julgam ações de Quéreas (que, no início da narrativa, aparentemente havia assassinado Calírroe), ou quando Quéreas e Dionísio serão julgados pelo rei da Pérsia, para definir quem ficará com a bela dama em disputa, ou a movimentação dos guerreiros ao final, quando Quéreas triunfa na guerra entre egípcios e persas. Não sabemos se é possível sugerir essa possibilidade de que o envolvimento da massa popular na história significaria uma forma de aproximação, pela qual o público grego se sentiria como partícipe da trama.

Curioso é como o tempo ou a passagem do tempo na narrativa não tem uma marcação muito exata. Cáriton propositalmente deixa a marca temporal de lado, para que sua história adentre os meandros da atemporalidade.

A tradução direta do grego, feita com denodo pela professora e pesquisadora Adriane da Silva Duarte (USP), merece elogios à parte. Tanto o prefácio quanto o posfácio iluminam a leitura, sem constituírem peças indispensáveis para uma boa compreensão da história, ainda mais que esta vem pontilhada com algumas notas de rodapé. Há passagens suplementadas, em virtude de supressões do original, mas cuja suplementações são inseridas criteriosamente, onde possível, sem perda para a significação dos trechos da narrativa onde isso acontece.

Quéreas e Calírroe, mesmo após quase dois mil anos, promove catarse que envolverá os leitores de hoje, do Brasil e de qualquer canto do mundo, em torno desse que pode ser chamado de “mito de Calírroe” e que, por todos os caprichos da narração, pode servir para consubstanciar leituras comparativas de histórias de amor nos romances de outras épocas e também nos contemporâneos.



RAFAEL VOIGT, editor da {voz da literatura}.

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