Preservação e edição de textos históricos: o labor filológico


por Leonardo Marcotulio


O estudo de uma língua pode ser realizado a partir da observação de seus textos. Para estágios atuais, dispõe-se, muitas vezes, de uma grande quantidade de textos orais e escritos. No entanto, quando recuamos no tempo, as opções se restringem no que se refere ao registro. Em função do recorte temporal com o qual se queira trabalhar, o investigador terá à sua disposição somente textos escritos que sobreviveram, por alguma razão, aos efeitos do tempo.


Embora estejam acessíveis, os textos históricos podem impor dificuldades de leitura de distintas ordens, relacionadas ao desgaste e deterioração do suporte, assim como a questões de natureza paleográfica que limitam ou impedem a decifração do texto. É exatamente nesse contexto que encontramos espaço para a figura do filólogo, pesquisador responsável pelo trabalho de recuperação, preservação, edição, divulgação e estudo de textos escritos em épocas pretéritas.



{} Filologia, história e língua: olhares sobre o português medieval | Org. Leonardo Lennertz Marcotulio et al. | Parábola Editorial | 2018 | 336 p.


Diversos centros no Brasil e no exterior têm desenvolvido trabalhos no âmbito da Filologia. Um deles é o Laboratório de História da Língua (HistLing), localizado na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde está sendo executado o projeto Edição de textos para a história da língua e outras histórias, que tem como objetivo a elaboração de edições de textos históricos escritos em português e a constituição de corpus. Em face da diversidade de temas tratados, os textos editados estarão disponíveis para estudos sobre a história da língua portuguesa, a história colonial brasileira, a história da vida privada no Rio de Janeiro e a história da arte no Brasil.




Fazem parte do acervo especial do projeto cartas particulares escritas por brasileiros nos séculos XIX e XX. O perfil sociolinguístico dos escreventes, que leva em consideração informações pessoais, profissionais e aspectos relacionados ao letramento e contato com a cultura escrita, está sendo mapeado. Os textos, já editados e em fase de revisão, se distribuem por nove fundos familiares: Cupertino do Amaral (1873-1895); Afonso Pena Júnior (1896-1926); Land Avellar (1907-1917); Casal dos anos 30 (1936-1937); Casimiro de Abreu (1857-1859); Avós Ottoni (1879-1889); Oswaldo Cruz (1889-1915); Acervo Pedreira Ferraz-Magalhães (1876-1928); e, por fim, Acervo Robertina de Souza (1908).


Em fase de ampliação, novas coleções documentais estão sendo preparadas. Ainda sobre o acervo de textos epistolares, cartas pertencentes a seis fundos documentais familiares estão sendo transcritas, editadas e/ou revisadas: Salgado Lacerda; Frazão Braga; Pereira Teixeira; Pedreira Ferraz-Magalhães; Didola; e Robert Reid Kalley.


Com o intuito de editar e disponibilizar fontes documentais para o estudo da história colonial brasileira, o acervo do projeto HistLing está sendo enriquecido com a edição de cartas setecentistas escritas pelo vice-rei marquês do Lavradio. D. Luís de Almeida Portugal Soares Alarcão Eça Melo Silva e Mascarenhas, 5º conde de Avintes e 2º marquês do Lavradio, foi governador da Bahia (1768-1769) e, posteriormente, vice-rei do Estado do Brasil (1769-1779). Seu acervo epistolar é um dos mais significativos conjuntos documentais de que se tem notícia, sendo representativo de uma cultura escrita e de uma prática epistolar características da Época Moderna, especialmente, do século XVIII. Do fundo Lavradio serão incorporados textos extraídos de livros copiadores depositados no Arquivo Nacional, Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin e Biblioteca Nacional de Portugal.



No âmbito da história da arte, o foco do projeto HistLing se dirige às coleções documentais pertencentes ao Museu D. João VI. Fundada na primeira metade do século XIX, a Academia Imperial de Belas Artes constituía-se como peça chave do projeto civilizatório, como centro artístico mais importante do Império e a primeira Academia de Belas Artes da América do Sul. Dentre suas funções mais importantes destacam-se a formação artística e intelectual dos artistas, a criação e educação do gosto artístico nacional, com a conseguinte criação de um mercado de arte, exposições públicas, etc. O acervo documental da Academia Imperial de Belas Artes é parte integrante do Museu D. João VI, localizado na Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro. São exemplos de alguns dos gêneros que fazem parte desse acervo: ordens de pagamento, cartas, ofícios, correspondências trocadas entre a Academia e o Ministério dos Negócios, atas, contratos, despesas, recibos, notas de alunos, livros de matrículas, livros de frequência, certidões, títulos, premiações, dentre outros. Num primeiro momento, a atenção está voltada à edição da correspondência trocada entre a Academia Imperial de Belas Artes e o Ministério dos Negócios do Império.


A partir do trabalho desenvolvido, espera-se fomentar a atividade filológica de preservação e edição de textos, assim como deixar à disposição da comunidade acadêmica e do público em geral uma coleção documental que permanece, em certa medida, inédita. Uma vez finalizada a fase de ampliação, o corpus elaborado pelo Laboratório de História da Língua disporá de um total aproximado de 1.630 textos escritos nos séculos XVIII, XIX e XX.


{n. 5 | setembro | 2018}


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LEONARDO MARCOTULIO é professor do Departamento de Letras Vernáculas, UFRJ. Atua também nos Programas de Pós-graduação em Letras Vernáculas e Letras Neolatinas, UFRJ. E é Bolsista do Programa Jovem Cientista do Nosso Estado, FAPERJ.


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