PAZ | Angela Leite de Souza

Atualizado: 24 de Nov de 2018


A arte abaixo reproduz um trecho do livro infanto-juvenil PAZ, escrito e ilustrado por Angela Leite de Souza, lançado pela editora mineira Abacatte, especializada em obras desse gênero.



A revista {voz da literatura} convidou Angela Leite para compartilhar com os leitores sua relevante trajetória como escritora e comentar as possibilidades de leitura do livro PAZ pelo público em geral e especialmente nas salas de aula do Brasil.


Angela Leite de Souza:

Pode-se dizer que minha carreira literária começa aos 7 anos de idade, quando fui alfabetizada. A partir daí, passei a escrever quadrinhas, textos “jornalísticos”, bilhetes… enfim, tudo o que acontecesse à minha volta ia para o papel, em forma de prosa ou de poesia. Aos 11, fiz o primeiro conto - “Confissões de uma bola branca de sinuca”. E na adolescência começaram a nascer os primeiros versos líricos, que eu ainda escondia na gaveta, insegura de sua qualidade. Aos 16, um crítico literário finalmente teve a disponibilidade de ler esses poemas e viu neles uma ressonância com Cecília Meireles. Fiquei mais confiante e passei a mostrá-lo a outros experts. Mas o maior incentivo veio anos mais tarde. Houve então um hiato na criação literária, porque em 1972 me formei em jornalismo pela PUC do Rio de Janeiro e durante muito tempo exerci meu lado repórter, trabalhando nas redações de O Globo, Veja e outros órgãos da imprensa. Na década de 80, surgiu a oportunidade de mostrar minha produção poética aos grandes escritores que frequentavam a famosa reunião carioca de literatos que ficou conhecida como Sabadoyle. Lá, ganhei o aval dos poetas Homero Homem e Gilberto Mendonça Teles e entrei em um concurso literário promovido pela Imprensa Oficial de Minas Gerais, que escolhia as dez melhores obras de vários gêneros e as premiava com a publicação. Assim nasceu, em 1982, meu primeiro livro, “Amoras com açúcar”, que Homero Homem me deu a honra de prefaciar. A partir daí, em três décadas e meia, foram publicados cerca de 70 títulos meus, de vários gêneros. Entre os anos 70 e 90, uma feliz descoberta – a literatura infanto-juvenil, em que acabei fazendo especialização na PUC de Minas Gerais. Essa nova vertente me deu grandes alegrias, em forma de prêmios - “Deusmelivre!”, Prêmio João de Barro da Prefeitura de Belo Horizonte; “Meus Rios”, Prêmio Carioquinha de Literatura Infantil; “Entre Linhas”, Prêmio de Poesia Odylo Costa, filho, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, entre outros reconhecimentos. Esse gênero literário também me abriu novo caminho, o da ilustração, uma área em que fui praticamente autodidata, já que até então havia dedicado minha formação e prática à palavra escrita. Com esse trabalho participei, por exemplo, da Bienal de Bratislava, na Eslováquia. A última aconteceu em 2017, em que foram expostas as imagens de “Cantiga dos meninos pastores”, que criei para um poema de Adélia Prado. A maior alegria foi conquistar, em 1997, com meu livro “Estas muitas Minas”, de poesia para adultos, o Prêmio Casa de las Américas de Literatura Brasileira, de Cuba.




Meu livro mais recente, “PAZ” levou um bom tempo para ser elaborado, já que fiz texto e ilustração. Ele tem me proporcionado fortes emoções porque vem sendo lido por um público surpreendente: crianças de três, cinco anos, adultos de todas as idades! Estes, homens e mulheres, me contam que chegaram às lágrimas. E os pequeninos, embora não saibam ler, demonstram uma total compreensão do conteúdo. Eis, sem dúvida, o grande “salário” de um autor.


Sei de uma professora que se valeu do “PAZ” para literalmente acalmar a turma, que havia voltado com toda a energia do recreio. Acho que assim deveria ser trabalhado o livro em sala de aula. Ou seja, uma leitura tranquila, pausada, deixando aos alunos espaço para reflexão sobre o que foi lido. Isto, claro, com as crianças menores. A elas devem ser mostradas as imagens correspondentes, porque são parte intrínseca da compreensão do texto. E será interessante dar a cada criança a oportunidade de manifestar a sua interpretação. Tenho o vídeo de uma menina de dois anos e meio que “decorou” o texto e vai folheando o livro como se lesse. A certa altura, para e aponta com o dedo, por exemplo, os botões que representam a indiferença, dizendo: “este aqui não quis entrar”. Ou, na página do medo: “olha, ele está com medo!”, diz indicando o pequeno botão “encolhido” no canto escuro da página.


Com os maiores, acho que é praticamente ilimitada a possibilidade de fazer um trabalho rico. O livro chegou em um momento de grande tensão e desentendimento em nosso país. Este, penso eu, deve ser o aspecto mais explorado, já que as situações abordadas no “PAZ” se aplicam ao nosso conturbado cotidiano. Como conviver harmoniosamente, como aceitar o “outro” colocando-nos em seu lugar, como respeitar quem pensa de modo diferente, enfim, fazer a esse outro aquilo que desejamos seja feito a nós mesmos. Questões relativas à cidadania, ao meio ambiente, à xenofobia, estas e outras podem ser levantadas e gerar debates, murais, dramatizações.


A mesma criança pequena que citei, ao chegar à última página do livro, exclamou, enquanto procurava com o indicador: “Deixa eu ver qual sou eu!” Escolheu um dos botões e demonstrou, assim, um perfeito entendimento da mensagem final, já que se incluiu entre aquele “mundo inteiro”.


{n. 7 | novembro | 2018}



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