O futuro começa agora

por Rafael Voigt*


Na última semana, o Brasil registrou mais de 15 mil mortes relacionadas à Covid-19. Diante desse triste cenário, parece cedo pensar em um mundo pós-pandemia. Mesmo assim, pululam as perguntas acerca do que seremos após este evento histórico de proporções ainda incalculáveis.

O que será o mundo após a pandemia? Qual futuro está reservado para a humanidade? Como a política, a economia, as relações internacionais se comportarão quando o novo coronavírus for domado? E se este for o século das pandemias intermitentes? Quais são os novos modus vivendi que inventaremos?


Essas são somente algumas das perguntas que vão surgindo na leitura de O futuro começa agora: da pandemia à utopia, do sociólogo português Boaventura de Sousa Santos (Boitempo, 2021).

Pensar o futuro, no mundo pós-pandêmico, significa lidar com a esperança. Muitas vezes o sentimento de esperança nos insere em uma redoma de passividade. O choque de realismo social advindo do novo livro de Boaventura ressignifica a esperança, para algo menos idealizado e utópico, nos lançando para um futuro para lá de verossímil e construído por meio da luta social.

O futuro começa agora se divide em duas partes. A primeira, com o título “O século 21 se apresenta”, já mostra que somente um fato histórico de tamanha monta como o da pandemia caracteriza o início de um século. Desse modo a centúria 21 tem seu fatídico início com o abalo pandêmico.

Entre outras metáforas possíveis ao vírus, Boaventura expressa preferência por aquela do “vírus como pedagogo”. O que o vírus quer nos dizer? Podemos escutar? O que ele vem nos ensinar? O sociólogo faz convite para uma tradução entre nossa linguagem e a linguagem viral.

Para tanto, passa em revista, em análise ampla, o mundo que a Covid-19 revelou, em suas mais obscuras entranhas, especialmente os males provocados por um modelo de sociedade arquitetado pelo tripé “capitalismo, colonialismo e patriarcado”. Por essas entranhas, é que veremos como a Covid-19 não é um vírus democrático, como alguns alardeiam por aí. Boaventura demonstra, de modo cristalino, que a população mais vulnerável é a que mais sofre com a pandemia, seja no tratamento sanitário dispensado, seja nas condições de trabalho e de sobrevivência.

O sociólogo encarrega-se de apresentar também organizações comunitárias exitosas no combate à pandemia e seus males, tais como a de Paraisópolis (SP) e a de povos indígenas da América Latina. Essas experiências não somente demonstram realidades onde a ação estatal é omissa, mas como a população, por meio de se protagonismo, pode construir um Estado diferente. Além disso, indicam a força das “epistemologias do Sul”, conceituação do autor cuja proposta valoriza o conhecimento, os saberes e as ações do Sul global.

A história dos vírus e sua relação com o colonialismo, a infodemia e as fake news, a indústria farmacêutica e o tentáculos do capitalismo abissal, a desigualdade e as discriminações, a democracia e os governos de (ultra)direita, a ciência e a negação do conhecimento científico... Todas essas facetas do mundo pandêmico são analisados meticulosamente por Boaventura.

De página a página, O futuro começa agora deve ser estudado com redobrada atenção. A segunda parte não é simplesmente um exercício de futurologia barata. Boaventura, a partir de arguta leitura de realidade histórica que perpassa o mundo pandêmico, realizada na primeira parte da obra, não poderia oferecer previsões rasas de um mundo que se anuncia no horizonte pós-pandemia.

É na segunda parte, por exemplo, que Boaventura propõe uma revisão ampla dos direitos e deveres dos homens. A Declaração Universal dos Direitos Humanos é objeto de minucioso debate. Boaventura recorre, assim, às bases históricas desse documento, sobre o qual ele chama a atenção para um eurocentrismo datado e de pouca serventia em tempos em que os atores e os cenários históricos são outros e tão diversos.

Outra preocupação de Boaventura é com o tema da “transição paradigmática”. Segundo ele o marxismo prestou importante contribuição ao nos fazer entender a passagem do feudalismo para o capitalismo. Algo semelhante é preciso acontecer agora. E parece que o trabalho de Boaventura tem muito a colaborar no estudo dessa transição entre o mundo pandêmico e o pós-pandêmico, especialmente numa aposta pela ecologia dos saberes.

Seria inconveniente e um contrassenso classificar Boaventura como um pensador de vanguarda por esse livro que aponta para um futuro ainda desconhecido, utópico. Ele prefere ser de “retaguarda”. Diante disso, estamos face a face com um cientista que reconhece até mesmo suas limitações ao escrever sobre a pandemia com a pandemia em curso:

“Como intelectual de retaguarda e não de vanguarda, que me orgulho de ser, se a pandemia se desenvolver por caminhos que contradizem as previsões implícitas em minha análise, não atribuirei a culpa à pandemia. Atribuirei à minha teoria e aos meus quadros analíticos. Terei de os rever para poder continuar a ajudar aqueles e aquelas que durante a pandemia assumiram a defesa da vida digna e imaginaram políticas e modos de vida que no futuro nos possam defender melhor de pandemias.” (p. 337)


SANTOS, Boaventura de Sousa. O futuro começa agora: da pandemia à utopia. 1. ed. São Paulo: Boitempo, 2021.

* RAFAEL VOIGT, editor da revista Voz da Literatura

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