MOÇAMBIQUE | Uma literatura sedenta e coesa


por Ernesto Moamba


Moça(mbique)

Moça(mbique)

Pátria de shongane, Xirilo e Mondlane

Terra da cacana e mandande

E do aroma da xima no carvão.

Moça(mbique)

Berço sagrado da Josina

Terra amarga, Mãezinha!

Onde o povo ronca pelo perdão divino.

Moça(mbique)

Terra de ouro e mineral

País fardado de recursos minerais.

terra revestida de carvão

Pátria libertada na escravidão

Moça(mbique)

Terra Mãe, que me negaste o amparo

Terra onde nascemos

Patria amada, Onde pretendo morrer.

Ernesto Moamba

{Filho da África}




É desta forma, impiedoso e triste, que inicio o meu ensaio literário sobre a literatura moçambicana contemporânea. Na verdade escrever penetradamente sobre alguns aspectos que consolidam poeticamente a literatura moçambicana nunca foi a minha intenção. Mas, com o impulso das veias e o ecoar das vozes silenciadas dentro de mim, decidi tensamente a descrever. Não para contradizer o que outros dizem sobre ela, nem para ferir com as sensibilidades humanas, mas, sim, para atrair emoções e despertar curiosidades e trazer uma ideia construtiva inerentes ao seu trilhar no mundo da escrita.


A literatura moçambicana contemporânea dificilmente poderia ser abordada sem a lembrança marcante de poetas como Rui Knopfli, Noémia de Sousa, Rui Nogar e, para saltar para o presente, Eduardo White, que a sua vivacidade em poesia perdeu-se em 2014. Todos eles, poetas que contribuíram para a invenção de Moçambique. Mas José Craveirinha (1922-2003) ocupa um espaço especial no contexto da literatura moçambicana. Os temas desenvolvidos na sua poética estão intimamente imbuídos de experiências políticas do país e do seu envolvimento nos momentos de transformações decisivas do processo colonial, bem como nas lutas pela independência e, mesmo, nas guerras pós-coloniais. Desse modo, o estudo da poesia de José Craveirinha requer um entendimento, nem que seja mínimo, da história de Moçambique, pois, de modo diferente, a leitura de sua poesia pode resultar parcial. Se cada poeta cria a partir de sua presença no seu mundo e dos cidadãos de seu tempo, José Craveirinha confirma a experiência como um motivo da construção literária. Nesse sentido, Ana Mafalda Leite (1991, p. 21) afirma que a sua atividade enquanto poeta, assim como a da maioria dos poetas e artistas de Moçambique, estava condicionada ao silêncio imposto e à ameaça da polícia política. José Craveirinha enforma por esse motivo, com Rui Nogar, Malangatana Valente, Luís Bernardo Honwana e Orlando Mendes, aquela que poderemos designar por geração do silêncio.


Queria também esclarecer que a poesia é relativamente e pouco procurada pelos autores, assim como leitores moçambicanos, preferindo estes a prosa. No entanto, nesta categoria, destacam-se brilhantes escritores como José Craveirinha, vencedor do Prémio Camões, Albino Magaia, associado à prestigiada Associação dos Escritores Moçambicanos, enquanto que na prosa moçambicana - esta, sim, embora jovem, considerada um elemento vital e prodigioso na literatura lusófona - destacam-se, primeiramente, Mia Couto, talvez o mais influente autor moçambicano, vencedor do Prémio União Latina de Literaturas Românicas de 2007 - de importância amplamente reconhecida, visto que alguns dos seus contos são leccionados nas escolas portuguesas; seguidamente, José Craveirinha, o aclamado vencedor do Prémio Camões, por votação popular, consagrando o seu sucesso junto do público; e Paulina Chiziane, uma das mais promissoras escritoras da lusofonia.


No presente contexto, espelhando ainda mais para o dia de hoje, nos deparamos com uma escrita unicamente esplendosa e riquíssima, carregando esta uma temática de raiz e tensamente compreensível, visto que a sua dinâmica é caracterizada pelos vários momentos resgatados durante o percurso de sua história. Embora observe-se por parte de alguns a perda irreversível da nossa história baseada nas nossas origens tradicionalmente culturais.


Permitam-me dizer que o poeta moçambicano de hoje considera-se "selvagem", quer fazer o que bem entender, preocupa-se com o amanhã mais do que com o resgate das suas origem esquecidos no passado. No entanto, existe um ego dentro de si, que o guia para frente, para um caminho cheio de espinhos que somente derrama lágrimas e sangue. Quero acreditar que muitos entendam este fio de palavras não como uma crítica, mas, sim, como uma visão espiritual ou uma análise pessoal. Existem alguns escritores de renome que consideram a escrita actual como "nada ou coisa nenhuma". Claro, cada um tem o seu ponto de vista e que deve ser respeitado, embora haja uma necessidade de se filtrar o que se diz em público para não resultar em confrontos linguísticos ou perda moral da estatura ou humanismo, pois a literatura moçambicana é feita de várias maneiras. Cada poeta ou escritor tem o seu lado criativo. Eis a questão que deixo ficar: - Por que não olhamos para esta nova escrita como uma inovação ou continuidade?


Para finalizar, apetece-me dizer que a literatura moçambicana actual esta a caminhar positivamente. Existe dentro dela uma nova semente germinando. Esta nova geração apresenta-se mais rica de ideias, inovação, experiência e auto-determinação, resultado de muita pesquisa e entrega. Gostaria de nomear alguns ou todos, mas para não cair em queda de esquecer alguns prefiro parabenizar ao grupo em geral pelo que têm feito pela literatura moçambicana, apesar de estarmos a viver num país ainda em desenvolvimento cultural.



Ernesto Moamba, conhecido também como “filho da áfrica”, é poeta e escritor moçambicano. Lançou, em 2016, pela editora do Carmo (Brasília-DF), o livro de poesia Liberta-te Mãe África.

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