Literatura, crítica e cultura em debate

por Haydée Ribeiro Coelho*


{Apresentação escrita para o recém-lançado livro Notícias da atual literatura brasileira II: entrevistas (Ed. Cousa), organizado por Vitor Cei, André Tessaro Pelinser e Letícia Malloy.}


Em 2020, Vitor Cei, André Tessaro Pelinser, Letícia Malloy e Andréia Delmaschio nos brindaram com o livro Notícia da atual literatura brasileira: entrevistas. No prefácio para o primeiro volume, os organizadores explicitam de forma clara o objetivo da publicação: “ofertar subsídios para uma futura história da vida literária das últimas décadas, consolidando material de referência destinado tanto aos atuais quanto aos futuros leitores e pesquisadores da literatura brasileira” (2020, p. 10). O segundo volume também caminha na mesma direção, ampliando o corpus já extenso, presente no livro inaugural. Caminhos, trilhas, bifurcações, encruzilhadas, encontros e desencontros literários, críticos e culturais ocorrem nesse mundo plural de biografias intelectuais cujas tramas são tecidas pela experiência, pela leitura, pela resistência e “dissidência”, conforme se pode observar nas respostas dos entrevistados.


Os entrevistadores Vitor Cei, André Tessaro Pelinser e Letícia Malloy reiteram argúcia crítica, pesquisa aprofundada e um compromisso ético e político, aspectos destacáveis na publicação de 2020. No sentido de retomar caminhos percorridos pelos organizadores, é importante acentuar que, também neste novo livro, é possível verificar uma linha diretriz, orientadora de perguntas e indagações colocadas aos entrevistados e, ao mesmo tempo, variável em consonância com as trajetórias biográficas e bibliográficas sobre os autores. Neste contexto, diversos caminhos descortinam-se: a cena da leitura e da escritura (ou tornar-se escritor); a formação de um público; diversos meios e suportes de transmissão da literatura e da cultura de forma geral; a literatura e os compromissos étnicos, de gênero e classe; a relação entre produção literária, o exílio, a migração e a diáspora; diversas recepções críticas no Brasil e em outras plagas; diferentes textualidades literárias em diálogo com outras formas artísticas e outras culturas; com a História, com a Filosofia; com o Jornalismo e, ainda, com os meios digitais; a tradução e o processo criativo; a relação entre escrita literária e a localidade e respectiva cultura; o posicionamento dos escritores diante da crítica e da Teoria da Literatura e o papel das instituições de cultura e de ensino para a formação do leitor.


No diálogo com os escritores, fica explicitado o lugar de onde se estabelece a interlocução. Vozes interrogantes dos pesquisadores, a propósito do presente, constatam o autoritarismo, o fascismo, o racismo, a misoginia e a homofobia no Brasil e no mundo. O deslocamento discursivo propicia uma reflexão individual e coletiva sobre o momento. As falas dos entrevistados engendram questões que se entrelaçam ao processo literário. Reafirmam a importância da literatura e das artes no combate às diversas formas de violência. O desmonte das instituições ocorrido nos últimos dois anos no estado brasileiro, o incitamento à violência e o ódio em relação à diferença são evidenciados de forma recorrente. A denúncia do contexto autoritário ocorre também pelo uso da sátira e da ironia. Nesta cena, entrevistados e entrevistadores são testemunhas de um tempo que está exigindo mudanças.


Jacques Derrida, em Mal de arquivo: uma impressão freudiana, ao refletir sobre o arquivo, remete à Arkhê que “designa ao mesmo tempo o começo e o comando” (2001, p. 10). Estendendo este enfoque para o livro de entrevistas, verifica-se que os pesquisadores comandam o arquivo, mas são igualmente comandados pelo modo singular como os sujeitos entrevistados se inscrevem no mundo e como apresentam seus argumentos. Em seus discursos problematizam-se, por exemplo, o conceito de atual, as premiações nos concursos literários e a noção de regional e regionalismo. É reivindicada a noção de “dissidência” em oposição à “resistência” na voz de autores que incorporam a etnia e a sexualidade em seus escritos. O corpo é o lugar da experiência e este é assumido etnicamente, sexualmente, socialmente e culturalmente.


Na explicitação do processo criativo, nas falas dos entrevistados, assinalem-se inovações temáticas e expressivas no âmbito literário e nas atividades culturais afins. Os meios de divulgação da produção cultural, além do impresso, ocorrem por E-book, Book Trailer, Instagram, Facebook, Blog e plataforma digital. Apesar dessa variedade disponível para a transmissão e a formação de um público-leitor, as dificuldades, a serem enfrentadas pelos escritores, não são poucas no espaço da internet e no âmbito das editoras.


No segundo volume organizado pelos professores e pesquisadores, “a história da vida literária das últimas décadas”, lida à luz das entrevistas, nos leva a uma série de questões, conforme foi delineado anteriormente. Aos comentários anteriores acrescento outro que diz respeito ao novo formato de escrever a história literária, tendo como base a entrevista. Como fonte de investigação histórica, ressalte-se que as formas autobiográficas passaram a ser consideradas, a partir de novas vertentes da historiografia (cf. HEYMANN, 2012, p. 71-78). No âmbito dos estudos literários, a crítica biográfica ultrapassou uma abordagem imanentista do texto literário e levou em consideração a “correspondência (...), depoimentos, iconografias, entrevistas, documentos de natureza privada, assim como a biblioteca, cultivada durante anos” (SOUZA, 2010, p. 26). Essa contextualização mostra que o percurso trilhado pelos organizadores está ancorado em tendências críticas da contemporaneidade.


Ao organizarem o primeiro e o segundo volumes de entrevistas, os pesquisadores produzem arquivos de história da literatura, da crítica e da cultura que entram em diálogo com outros modos de arquivar a vida literária, crítica e cultural no Brasil, mas não só isso. Estes arquivos suscitam diferentes rearranjos que produzirão arquivos dentro de arquivos sob uma perspectiva rizomática. Nesse caso, a Notícia da atual literatura brasileira será transformada em novas notícias, concretizando a proposta que desencadeou a organização dos dois volumes. A semente lançada e plantada constitui com certeza uma fonte de consulta obrigatória para o público acadêmico e para aqueles que desejam fazer a leitura do mundo deste tempo e de outros.


Haydée Ribeiro Coelho, professora associada IV da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais e pesquisadora do CNPq.

Referências


CEI, Vitor; PELINSER, André Tessaro; MALLOY, Letícia, DELMASCHIO; Andréia (Orgs). Notícia da atual literatura brasileira: entrevistas. Vitória: Cousa, 2020.


DERRIDA, Jacques. Mal de arquivo: uma impressão freudiana. Trad. Cláudia de Moraes Rego. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2001.


HEYMANN, Luciana Quillet. Os arquivos em questão: novas abordagens, antigas tradições. In: ______. O lugar do arquivo: a construção do legado de Darcy Ribeiro. Rio de Janeiro: Contra Capa / FAPERJ, 2012.


SOUZA, Eneida Maria de. Crítica genética e crítica biográfica. Letras de Hoje, Porto Alegre, v. 45, out./dez. 2010.



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