MOÇAMBIQUE | Leona, a filha do silêncio


Editora Kapulana lançou, no início do mês de agosto, o novo volume da série "Contos de Moçambique": Leoana, a filha do silêncio, escrito por Marcelo Panguana, com ilustrações de Luís Cardoso. A revista {voz da literatura} publica a seguir trecho da obra.





Viviam num lugar de mil encantos. E havia um rio onde o céu se olhava todos os dias. Árvores frondosas que ao leve rumor de vento faziam do chão um colorido tapete.



Era um lugar onde os pássaros inventavam maravilhosos cânticos de manhã até o sol se deitar nas lonjuras do horizonte. Um lugar melhor que todos os lugares. Era nessa harmonia de natureza que vivia a Leona, filha do Leão e da Leoa. Ela tinha o corpo esbelto e esguio. Os seus olhos brilhavam como as estrelas em noites sem luar. A sua pele tinha a suavidade de uma bola de algodão. Os cabelos longos caíam nos ombros como as águas através da cascata.



Ilustração de "Leona, a filha do silêncio"

Sempre que a olhavam, todos os animais se extasiavam perante tanta beleza!


Leona, sentada em rendilhados cantos, mantinha-se silenciosa e distante, os olhos perdidos no horizonte. Nada lhe interessava. Nem a sedutora vertigem do amor. Nem a alegria do riso. Muito menos o conforto da conversa.


– Se Leona decidira deixar de falar, algum dia subiria ao altar? – perguntavam-se os habitantes da Floresta.


Um dia, o Leão e a Leoa viajaram para terras distantes. Trouxeram, no regresso, um vestido de noiva. Aquele que fosse capaz de devolver a fala da sua filha, podia levá-la ao altar. O vestido ficou exposto ao povo da Floresta dias sem fim. Tinha diamantes bordados. Pérolas de reconhecido quilate. Fios de ouro. E era tão branco como a neve. Todas as vezes que Leona olhava para o vestido, duas lágrimas caíam furtivas dos seus olhos, deslizavam pela sua pele macia e molhavam o chão do lugar. E lembrava-se, então, do pastorinho.


Fora há muito tempo. Junto ao rio. Debaixo da sombra onde a Leona se sentava para tecer as teias do seu futuro. O pastorinho trazia um chapéu de pele de hiena, um bornal de mantimentos, uma bengala para suster o cansaço da caminhada, o pó a decorar os sapatos gastos. E, mais que tudo, os olhos azuis, como o rio que atravessava a Floresta.

– Donde vem?

– De longe. Duma terra sem nome. Procuro o meu bode com chifres de ouro que se perdeu num dia de tempestade. Percorri muitas terras. Dormi debaixo das estrelas e da chuva. Cruzei-me com malfeitores e gente de bem. Falei com todos os animais. Ninguém sabe onde para o meu bode.


Leona respondeu:

– Aqui na Floresta não está.

– O que faço?

E ela, submissa e apaixonada, rogou:

– É melhor ficar. Perdes o bode e ganhas o meu amor.

– Tenho que o encontrar.

– Por quê?

– É o bode sagrado do meu povo.

– Só isso?

– Guarda os segredos do nosso destino.



Ilustração de "Leona, a filha do silêncio"

© 2020 {voz da literatura}

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