JAPÃO | O difícil Kafka à beira-mar


por Michele Eduarda Brasil de Sá


Kafka à beira-mar {romance} | Haruki Murakami | Trad. Leiko Gotoda | Alfaguara | 2008 | 576 p.

“Você não deve começar a ler Murakami pelo livro Kafka à beira-mar. É o mais difícil dele.”


Tarde demais. Quando me disseram isso, eu não só já o tinha lido, como já tinha amado e já o tinha tornado meu objeto de pesquisa. Ainda não li todos os livros do Murakami (sim, ele tem vários!), porém acho que posso dizer que discordo que seja o seu livro mais difícil. Digo isso não me baseando em um suposto ranking de “dificuldade” das obras, mas refletindo sobre o que essa “dificuldade” pode representar. Na verdade, acho que é um livro denso, cheio de elementos que dialogam entre si e com elementos externos, tanto de outros romances como de músicas, de lugares, de mídias, de mundos. Eu diria que é um livro mais rico do que difícil. O desafio é conhecer as referências, os elementos externos que são trazidos para dentro do romance.


Talvez as pessoas estejam esperando um livro que tenha apenas uma interpretação ou um enigma que, apesar de complexo, tenha uma elaborada solução. Para muitos, se você não consegue saber com certeza o que é cada peça, cada personagem do romance, mesmo que tenha que esperar até o final da leitura para descobrir, o livro é “difícil”. A Sra. Saeki era ou não era a mãe de Kafka Tamura? Depende. O que significa o personagem Coronel Saunders? Depende. Por que Nakata conversava justamente com gatos? Depende. Depende. Tudo depende de outra coisa. Neste sentido, são múltiplas as interpretações, o que deveria ser encarado como algo positivo, mas infelizmente é muitas vezes tachado de “difícil”. Esta realidade se percebe sobretudo no contexto da sala de aula, já que, por diversos fatores que não cabe desenvolver aqui, os alunos esperam uma resposta única – uma só interpretação, uma explicação certa. Entretanto, o que se pode fazer, no máximo, é dar “uma certa explicação”. O resto é de cada um que lê.


Vou tentar fazer um paralelo. Quando ainda na escola eu li Dom Casmurro, de Machado de Assis, minha leitura era só o estudo de vocabulário – para compreender tintim por tintim um romance do século dezenove – e o esforço de tentar descobrir se Capitu traiu Bentinho. Frustração dos estudantes, nunca ninguém vai ter certeza. Já na faculdade, durante a graduação, com mais vivência e mais leitura, fui vendo Shakespeare no romance. Fui percebendo outras coisas que não seria capaz de perceber antes, no antigo ginásio. Tenho certeza que hoje, já como pesquisadora, uma nova leitura me permitiria fazer mais conexões. Pois bem. Kafka à beira-mar é este tipo de livro. Permite vários níveis de leitura – e nenhuma resposta definitiva. Nele tem Kafka, tem Édipo, tem Natsume Sôseki, tem Murasaki Shikibu, tem labirinto, tem corvo, tem metamorfose, tem suspense, tem mistério, tem filosofia, tem mais. Por isso é rico. Torna-se difícil, quando faltam as referências com as quais o diálogo existe. Neste aspecto, realmente, Kafka à beira-mar parece ser o livro mais difícil de Murakami.


Mas não deixe de lê-lo por causa disso.


{n. 3 | julho | 2018}

Michele Eduarda Brasil de Sá é professora da área de Japonês do Departamento de Línguas Estrangeiras e Tradução da Universidade de Brasília (UnB).


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