SAPERE AUDE | Há dragões na Internet

por Demi Getschko



Na sala 3420 do Ed. Boelter Hall na UCLA, Universidade da Califórnia, Los Angeles, há uma placa onde consta que a Internet nasceu exatamente às 22:30 do dia 20 de outubro de 1969 lá mesmo. É a sala do Prof. Leonard Kleinrock, um dos pioneiros da Internet.


{} Sala 3420 do Ed. Boelter Hall, na Universidade da Califórnia (Los Angeles) .onde nasceu a internet em 1969.

A Internet nasceu como ARPANET, um projeto de rede de computadores dentro da ARPA, Advanced Research Projects Agency, que depois ganhou um D inicial (de Defense), e tornou-se DARPA. Para um projeto de rede financiado por recursos da área militar dos Estados Unidos da América, e desenvolvido em laboratório próprio, no final dos anos 60, seria de se esperar um sabor da “guerra fria”, então em evidência. Mas há outros viéses. Há que se levar em conta que nem sempre recursos militares financiam projetos que visem apenas à área militar. Muitos projetos que nascem em laboratórios militares tem finalidade e aplicabilidade ampla e se destinam a testar tecnologias e hipóteses. Foi no ambiente ARPA, por exemplo, que o sistema de geolocalização GPS foi desenvolvido, e também exoesqueletos, robôs, projetos de tradução automática (SIRI), de mapas (Google) e o próprio navegador TOR, que tem seu embrião na Marinha.


No caso da Internet há ainda outra coincidência reveladora: em agosto de 1969, mesmo ano do “nascimento” da Internet, houve o famoso festival de música de Woodstock. Também em 1969, enquanto a contracultura florescia nos EUA e especialmente na região da UCLA, na China a revolução cultural atingia seu ápice.

O que parece claro é que a inspiração para os conceitos da Internet veio muito mais do caldo cultural existente à época, do que de rígidos padrões militares. A rede nasceu aberta, sem uma central de controle e sem uma “chave de desligamento”, mas muito resiliente e sólida. Em 1982 a ARPANET passou pela maturação definitiva: adotou um conjunto de protocolos desenvolvidos por Robert Kahn e Vinton Cerf, pesquisadores que haviam sido incumbidos da tarefa de aprimorar o funcionamento da rede. O protocolo conhecido como TCP/IP consta de duas camadas principais: a básica, IP (Internet Protocol), e outra fim-a-fim, o TCP (Transmission Control Protocol). O IP tem por função juntar todas as redes autônomas que se voluntariassem a se integrar numa única rede. O IP, assim, “cola” os retalhos que formam a rede. Seu sucesso foi tanto que a rede resultante adotou o nome do protocolo. Ela passou a ser identificada como a “Internet”.


De 1982 em diante o que se viu foi uma expansão exuberante, que iniciou na área acadêmica mas em pouco tempo atingiu a sociedade como um todo: a disseminação de computadores pessoais e a evolução da tecnologia em Informática e em Comunicações, com a correspondente queda nos preços dos equipamentos e da infraestrutura. Também importante foi o aparecimento de sistemas operacionais abertos e gratuitos, como o UNIX e variantes. Numa evolução claramente simbiótica, podemos dizer que a Internet valeu-se de sistemas abertos como o UNIX e estes, por sua vez, puderam se desenvolver melhor com a colaboração de entusiastas agrupados em todo o mundo usando a Internet...


A partir de 1993, com a chegada da Web, o atrativo que a Internet tinha, como rede de comunicação de computadores, fortaleceu-se grandemente ao conectar indivíduos e servir de plataforma para conteúdos que todos quisessem publicar. Redes sociais são conseqüência direta da entrada de uma miríade de novos usuários na Internet, provenientes de qualquer local e cultura.


Umberto Eco, ao fazer um paralelo entre as descompromissadas “conversas de botequim” animadas por vapores etílicos e as novas interações que a Internet permitiu, foi bastante ácido ao escarmentar o efeito da rápida chegada dos bilhões de humanos à rede. Há que se convir, entretanto, que esse enorme afluxo ocorreu sem que os ingressantes tivessem tempo de entender o poder e o alcance da nova ferramenta agora à mão. Passou-se de uma época com poucos emissores distribuindo informação a muitos ouvintes, a, com Internet, uma simetria no número de emissores e ouvintes. A voz de todos, suas ideias e posicionamentos, às vezes intempestivamente ou não suficientemente avaliados, passaram a circular na rede. A embriaguez de um indivíduo ter o poder de, por primeira vez, falar com alcance mundial é uma sensação irresistível. Uma inevitável cacofonia certamente iria se estabelecer...


Junto com as levas de ingressantes tem-se, também, novas potenciais vítimas daqueles que se aproveitam da situação. Incômodos, em geral advindos de mensagens não solicitadas, passaram a embutir riscos adicionais: armadilhas para roubar dados dos neófitos, fraudes, ataques, chantagens e, claro, as notícias falsas. Se hoje estamos inundados com a quantidade de informação de baixa qualidade e confiabilidade, ou que carregam intenções espúrias, não devemos esquecer que: 1- mentiras sempre as houve; 2- mentiras são tão mais eficientes quando mais receptivo estiver o destinatário ao tema em questão. Ou seja, queremos ouvir coisas que reforcem nossas opiniões e posições, mesmo sem dar muita atenção à sua veracidade. Aliás, como dizia Millor Fernandes, uma meia-verdade é pior (e mais eficiente!) que uma mentira deslavada...


Nós, os brasileiros, temos características peculiares: não nos intimidamos com novidades tecnológicas, que acabam sendo adotadas rapidamente e sem muito escrutínio, e somos muito comunicativos, dando mais valor ao intercâmbio de informações do que à preservação de nossa intimidade. Em pouco tempo passamos a ter grande presença em redes sociais e a liderarmos na quantidade de tempo de conexão à rede.


Tentar olhar a floresta que a Internet representa é difícil. Há tanta “árvore”, tanto aplicativo, tantas informações, transações e divertimento, que acabamos por entrar na mata sem maiores precauções. Sem dúvida são tempos mágicos, em que facilmente nos agrupamos em comunidades de interesse, expomos veementemente nossos posicionamentos pessoais, exibimos nossa intimidade. Essa exuberância, essa espuma superficial, espero, deve coalescer à medida que se obtenha maturidade. Há riscos e custos mas, a meu ver, o ganho é inestimável e irreversível. No ambiente que se formou, as velhas métricas e padrões em muitos casos não mais se aplicam. São mares inexplorados esses em que nos aventuramos. Quanto a trechos desconhecidos, os antigos mapas advertiam: “hic sunt dracones”, “há dragões aí!”, mas a navegação sempre foi um desafio a enfrentar, e com entusiasmo. Bons ventos a todos!


{n. 4 | agosto | 2018}

* sapere aude: ouse saber.


DEMI GETSCHKO é Diretor Presidente do NIC.br e também representante de notório saber em assunto da Internet do CGI.br. Membro do Hall da Fama da Internet, é formado em Engenharia Elétrica pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), pela qual também é mestre e doutor. Foi o responsável pela primeira conexão TCP/IP brasileira, em 1991.


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