Entrevista | Maria Helena de Moura Neves

Atualizado: 27 de Nov de 2018




A linguista Maria Helena de Moura

Neves, professora emérita da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp) e da Universidade Presbiteriana

Mackenzie (UPM), possui um extenso

trabalho de pesquisa acerca das relações

entre texto e gramática e sobre a teoria

funcionalista da linguagem. Publicou mais de uma dezena de livros a respeito desses temas, entre eles: Gramática de usos do português (Unesp, 2012), Guia de usos do português (Unesp, 2011), Texto e gramática (Contexto, 2006) e Que gramática estudar na escola? Norma e uso na língua portuguesa (Contexto, 2003). Nesta entrevista, a {voz da literatura} conversou com a autora que lançou em junho, pela editora

Unesp, a obra monumental A gramática do português revelada em textos.



Como e quando surgiu o projeto de A gramática do português revelada em textos?

Na verdade, desde quando iniciei meu trato com língua e linguagem, vejo-me com atenção especialmente voltada aos textos, na busca (e na montagem) da gramática da língua. O desiderato é captar a 'gramática' da língua diretamente no uso linguístico, vendo-a como nada mais do que o cálculo de produção de sentido em linguagem, e vendo o arranjo construcional dos textos como a montagem de peças que responde à projeção de significados e de efeitos que um determinado ato de linguagem teve

como propósito.

Por outro lado, esse modo de apresentação que minha nova gramática tem (por exemplo, concebendo lições gramaticais específicas a partir de um texto mote) não

poderia ser de tal modo tentado se minha experiência não tivesse passado pela reflexão que acompanhou a elaboração de livros autorais meus, cujos temas

ficam transparentes nos títulos: Gramática na escola (1990), Gramática: história, teoria e análise (2002), Que gramática estudar na escola (2003), Texto e gramática (2006), Ensino de linguagem e vivência de língua (2006), A gramática passada a limpo (2012), e, em especial, a Gramática de usos do português (2000). Relevantemente, toda essa experiência se nutriu da atividade docente que nunca deixei de exercer, a partir da data em que, completando 18 anos, entrei em sala de aula para nunca mais sair. Passei praticamente por todos os níveis de atuação escolar em linguagem e língua portuguesa, sempre fixada em leitura (muita literatura), redação e gramática, vistas

como ingredientes de uma mesma engrenagem de lida com a língua: foi por aí que minhas aulas sempre se desenvolveram com textos abertos em cima da carteira (muitos literários), nutrindo-se deles as lições de gramática que iam emergindo.

A ‘arte’ da gramática sempre foi meu móvel de busca: por exemplo, o que me levou a escolher o Grego para a Licenciatura em Letras foi eu querer descobrir o que é que o povo grego tinha de especial que o levou a sentir a 'necessidade' de propor uma 'gramática' da sua língua, e lhe permitiu a consecução disso. Para a tese em Grego que propus, como docente de Língua e Literatura grega que fui, fixei exatamente esse objetivo, e descobri, por exemplo, que o berço dessa prontidão eu encontraria no desenvolvimento a que a literatura tinha elevado o espírito grego, com a compreensão, já em Homero (e a seguir, na filosofia clássica), da essência da condição humana. Na verdade, para mim a linguagem da literatura é a linguagem, exatamente, das essências.




A gramática do português revelada em textos | Maria Helena de Moura Neves | Editora Unesp | 2018 | 1398 p.



Em que esta obra se diferencia de outros livros de sua bibliografia, como Gramática de usos do português e Texto e gramática?

Meu propósito (segundo meus conceitos teóricos, de orientação funcionalista) é sempre o mesmo, e está claro nas minhas diversas produções, acredito: é buscar uma explicitação da gramática que responda pela língua em função, ou seja, pelas ações de linguagem que recebem empacotamento e estruturação em uma língua natural (no caso, particularmente a língua portuguesa): a evidência está em que meus estudos de gramática não trazem 'exemplos' que abonem formulações; pelo contrário, as formulações das lições partem de 'ocorrências' recolhidas em textos reais. Nessa linha, o móvel central é sempre buscar imprimir à formação escolar esse compromisso com a 'vivência da linguagem' no 'ensino da língua, não isolando a 'gramática' do 'texto', ou seja, construindo uma 'gramática de usos', e não recolhendo entidades que, já com rótulos gramaticais, entrem no cenário dos estudos a partir daquilo que avulsamente se diz delas em lições não dirigidas para o que elas representam no fazer do texto.

Concretamente, a diferença desta gramática com a Gramática de usos é o abrigo de textos inteiros, ou partes maiores de textos, o que é imprescindível, na proposta. Infelizmente, a massa de textos inteiros mais recentes inicialmente levantada teve de ser reduzida, frente à descomunal despesa que haveria com o pagamento de direitos autorais pelos textos usados na explicitação das lições: nos últimos cinco anos meu livro foi reformulado quatro vezes, para contornar-se a impossibilidade da publicação, chegando-se, afinal, a um montante de gasto ainda alto, mas considerado viável.


Na apresentação do livro A gramática do português revelada em textos, a senhora afirma que “pretende que ele vá às salas de aula, ou pela leitura direta de suas ‘lições’ (a depender do nível de ensino), ou pela voz dos professores que delas se sirvam nas suas aulas, mas sempre a partir da leitura dos textos/das ocorrências de linguagem que ele oferece.” A gramática do português revelada em textos pretende servir como obra de referência na educação básica para a construção de um novo paradigma de educação linguística no país, cada vez mais distanciado de uma visão sobre o fenômeno linguístico restrita apenas à chamada “gramática normativa”?

Uma gramática da língua é uma obra de referência, sim, e necessariamente com todo um encorpamento teórico. Também respondo positivamente quanto à necessidade de que as ações escolares tenham foco na educação básica, e a própria centração de minhas propostas na língua em função remete a essa destinação. Entretanto, no caso, a destinação é, com certeza, indireta: não é aos alunos do ensino básico, mas é aos professores (“licenciados”) que deve ser dada essa formação que os leve a entender que a 'língua' não existe fora da 'linguagem', portanto o 'ensino' de língua alheado da visão do uso linguístico não tem como atuar positivamente no trato escolar com língua portuguesa.

Por outro lado, a proposta passa longe de qualquer cogitação de estabelecimento de 'paradigmas', no campo da educação linguística, o que seria nova distorção. Não se trata, porém, de proposta de um trabalho escolar com linguagem que exclua o cuidado com a “norma" funcional, o que seria cegueira de visão: a noção de “norma”, no uso, lá está funcionalmente contemplada (como está no Guia de uso, 2003). A bandeira erguida é o abandono de lições que, divorciadas da produção de linguagem, se contentem com o recorte de peças isoladas da inserção em enunciados, simples carimbos sem contraparte funcional.


De que modo foram selecionados os textos que compõem o corpus do livro?

Na Unesp de Araraquara dispomos de um córpus de centenas de milhares de ocorrências, constituído de textos, em português, de todos os gêneros e tipos, montado para sustentar a elaboração de dicionários, que fizemos em equipe (o mais recente deles, no prelo), e de minhas gramáticas, acrescentando-se, porém, que, para essa segunda, houve inspiração muito diretamente derivada de leituras pessoais (livros, revistas, jornais e os demais veículos).



Foto: Carlos Siqueira. IV SIMELP, UFG, 2013.

Nos últimos dez anos, algumas gramáticas apareceram com novas abordagens, como Gramática Houaiss da língua portuguesa (José Carlos de Azeredo), Gramática Pedagógica do Português Brasileiro (Marcos Bagno), Nova gramática do português brasileiro (Ataliba T. de Castilho), Gramática do português brasileiro (Mário A. Perini). Essas gramáticas de alguma maneira estimularam a elaboração de A Gramática do Português Revelada em Textos?

Pela ordenação dos fatos, não é o caso de falar-se em estímulo dessas obras para as minhas, já que minha primeira gramática de usos foi entregue para publicação por volta de 1998, e a segunda (na verdade, um simples passo além, em relação à primeira) foi entregue em 2012. As obras desses estudiosos – grandes amigos –, de lúcida e consistente orientação, são magníficas e fazem história. São novas propostas de explicitação gramatical em língua portuguesa merecedoras de grande destaque positivo, e foi isso que proclamei quando, no IV Simelp (Goiânia, 2013), lancei a esses gramáticos aí relacionados (e também a M. H. M. Mateus, de Portugal, e a E. Bechara, assim como a mim mesma) esta provocação: cada um de nós deveria completar esta frase "Defino minha obra gramatical como.....". O resultado foi notável, e com isso a historiografia linguística passou a contar com um registro inestimável do que, nos anos recentes (em especial no Brasil), se desenvolvera, em relação à gramática da língua portuguesa*.


* O registro mencionado encontra-se no livro Gramáticas contemporâneas do português: com a palavra, os autores (Parábola, 2014), organizado por Maria Helena de Moura Neves Neves e Vânia Cristina Casseb-Galvão.


{n. 7 | novembro | 2018}


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