Emily Dickinson Contemporânea

por Dinarte Albuquerque Filho*


Quando Emily Dickinson nasceu, em 1830, os círculos literários e intelectuais nos Estados Unidos viviam o período Romântico, realizado entre 1820 e 1860. Consolidava-se, naquele momento, a identidade nacional e uma poderosa paixão, resultado de um movimento que tinha a arte como inspiração e uma dimensão estética e espiritual da natureza e das metáforas de organicidade.


Entre vozes importantes do século XIX – os transcendentalistas Ralph Waldo Emerson (1803-1882), Henry David Thoreau (1817-1862) e Walt Withman (1819-1892), e os reformadores John Greenleaf Whittier (1807-1892) e Margareth Fuller (1810-1850), entre outros – a poesia de Emily só foi devidamente notada depois de sua morte, ocorrida em 1886. Pode-se dizer que é recente a consagração da poeta como um dos grandes nomes da literatura estadunidense: a primeira publicação de suas poesias, de forma integral, só ocorreu em 1955. “Sorrio quando o senhor sugere que adie a ‘publicação’”, escreveu ela para um dos poucos amigos que manteve ao longo de sua vida[1], o crítico literário Thomas Wentworth Higginson (1823-1911).


Hoje, seu nome e seus versos circulam, se não de forma natural (como são seus poemas), com maior acolhida e investimento: este ano foi publicado o primeiro volume da obra completa da poeta nascida em Amherst (Massachusetts), com poemas traduzidos e organizados pelo professor Adalberto Müller para as editoras da Unicamp e da UnB[2]. Antes, o acesso já havia sido facilitado pelos belíssimos trabalhos de Aíla de Oliveira Gomes, Augusto de Campos, Idelma Ribeiro de Faria e José Lira.


Emily Dickinson escreveu seus primeiros poemas em fins da década de 1850. Foram cerca de 30 anos de escrita e observações da sociedade em que vivia, praticamente sem sair de casa. Sua temática, mesmo que ela não tenha tido consciência disso, trouxe nova estética para a poesia – fama, anonimato, fobia social, amor lésbico, crise religiosa, preocupação ambiental, além do amor e da preocupação com o alcance de suas palavras – e a tornaram contemporânea. Ela também “escreveu sob o impacto da Guerra Civil e da ‘polarização extremista’. Seu pai e amigos eram abolicionistas, lutavam pela causa indígena e Emily conviveu com imigrantes”, segundo Müller.


Esta, minha carta para o mundo,

Que nunca escreveu para mim –

Simples novas que a Natureza

Contou com terna nobreza.


Sua mensagem, eu a confio

A mãos que nunca vou ver –

Por causa dela – gente minha –

Julgai-me com bem-querer[3].


Seus biógrafos e os pesquisadores de sua obra, entre eles George Whicher, Richard Sewall e William Luce, consideram que a escassa publicação em vida – menos de uma dezena tornaram-se públicos, alguns editados e modificados – deve-se ao desconforto da autora com o cenário social imposto em relação às mulheres, de obediência e respeito aos homens, e à sua voluntária decisão de insociabilidade, o que a levou a criar um jeito de se expressar em meio ao isolamento e à adequação às normas vigentes, à distância.


Minha vida, encostada pelos cantos –

Carabina com carga – um dia

Passou o dono – identificou-me –

Levou-me em sua companhia.