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"Eis a carta dos céus": notas de um encontro com Orides Fontela

Este é o título do sexto número da Coleção Ensaio da Revista Voz da Literatura. Lançada durante o ano de 2020, a coleção retorna com novo projeto gráfico e com o renovado propósito de disseminar breves ensaios de pesquisadores da área de literatura.


Na retomada desse projeto especial, convidamos os leitores a adentrarem o universo de Orides Fontela, de mãos dadas com a ensaísta Nathaly Felipe Ferreira Alves, doutora em literatura com a tese O lirismo objetivo de Orides Fontela (Unicamp, 2022).


 

A partir de uma dinâmica relacional eu/mundo, ao “sair de si” (expressão de Michel Collot), a subjetividade lírica oridiana pode fazer-se outra – e outras, em nível intersubjetivo – com a alteridade do próprio mundo, de suas coisas, de seus seres, das outras subjetividades que aí habitam. Ao apresentar-se como investigação e origem de uma realidade partilhada liricamente, os poemas de Orides são experiência de e como linguagem: exercícios poético-filosóficos investigadores da subjetividade humana e de seus devires.


Sem focar necessariamente em um sujeito em específico, a poeta convida a pensar, afinal, o que é humanidade e o que significa a existência humana no mundo. Para tanto, a “aristocrata selvagem” (apelido sugerido por Nogueira Moutinho) parte de uma espécie de fenomenologia poética também “selvagem”: descobre, no indizível da palavra, o forro que atapeta o dizível, não o limitando a um duplo intelectual, mas o entendendo em sua fatura sensível.


Orides Fontela inaugura, portanto, canto inaudito na materialidade do poema, na abertura simultânea de seu corpo-ritmo, nas imagens poéticas entremeadas à investigação poético-existencial da subjetividade lírica, na imanência de sua voz. Ao realizar-se acontecimento poético, sua poesia propõe-se também como advento poético, que carrega, em suas entranhas, devir que pede hospedagem. Em seu doar (fruto de um fazer criativo que sente-pensa), abriga, afinal, promessa de acontecimentos, sempre primeiros, como é primeiro o próprio olhar da poesia oridiana, em seu jogo lúdico/lúcido.


O que proponho, portanto, ao pensar sobre os desdobramentos do sujeito lírico na poética de Orides Fontela, não é simples convergência da interioridade à exterioridade ou sua exata coincidência na formulação dos poemas. É a imbricação dessas categorias o que interessa, levando em consideração que a poesia se constrói a partir de linguagem contundentemente afetiva. Algo que, contudo, não significa mera expressão da interioridade plena do “eu”, porque a emoção poética afeta e integra – ao não priorizar unidade ou supremacia de sujeito ou de objeto – perspectivas e linhas de fuga pelas quais a experiência subjetiva se estrutura. De modo que o sujeito se institui como campo de ação no e do mundo, investigando a si, ao mundo e à linguagem, justamente pelo atravessamento da própria linguagem poética.


Tal atravessamento é decisivamente singular: experimento poético de linguagem configurado tanto pelo espaço de convívio e de encontro com a escritura, quanto com a leitura (po)ética de nossa constituição com e no mundo. Por isso, gosto de pensar a leitura dos poemas de Orides Fontela nos termos de um encontro: encontro-leitura tanto da poeta com o mundo, quanto minha com os seus poemas. A ideia da leitura como momento oportuno ao encontro de instâncias que se entrecruzam (ao singrar modos de dizer e modos de calar) e, em certo sentido, a noção da leitura como acontecimento de estar-no-mundo agasalham, a meu ver, certa “promessa de leitura” proposta também como escuta: poemas e leitores se enredam em infinita dinâmica de ressonâncias instaurada em espécie de espaçamento, isto é, de dispositivo de atravessamento, de limiar instaurador de relações (in)visíveis entre intimidade e alteridade.


Ao aproximar limites entre os já sujeitos-objetos (porque não se trata de pensar sob lógica verticalizada que antevê a ação de um sujeito uno e pleno sobre o “objeto poético” essencialmente submisso a sua perspectiva de visão), os poemas organizam-se como dispositivos estéticos de encadeamento entre sujeitos e objetos, que partilham entre si espessuras distintas, condensando e/ou dispersando as suas existências na imanência do mundo em que se afetam. Nesse sentido, indico a metáfora espacial dos mapas, propiciada pela cartografia poética que Orides produz, para refletir sobre como leitura é, antes de tudo, perspectiva assumida para e com o poema. Co-movendo-se enquanto “continentes à deriva”, universos colidem com a experimentação afetiva dos sujeitos pertencentes e concomitantemente atuantes na paisagem cartográfica, mesmo que, por vezes, indicialmente.


É assim que extratos materiais humanos e além-humanos (o mundo em sua concretude, que não deixa de ser também o poema que sangra a carne do papel) se interconectam. Apresentam, ao sujeito poético e aos leitores, novas formas de habitação ou de passagem no/do real em que, de alguma maneira, “eu”/mundo passam a ser localizações líricas imbricadas, (re)criadas conjunto e continuamente, sob forma de fronteiras já borradas, como se lê em “Mapa” (Alba, 1983): “Eis a carta dos céus: / as distâncias vivas / indicam apenas / roteiros / os astros não se interligam / e a distância maior / é olhar apenas. [...] // Eis a carta dos céus: tudo / indeterminado e imprevisto / cria um amor fluente / e sempre vivo. // Eis a carta dos céus: tudo / se move.”.


Nesse poema, a subjetividade lírica eclipsada pela anunciação da “carta dos céus”, indica-se fragmentariamente, por meio de sua perspectiva de visão. O “olhar” tanto esclarece, quanto gerencia (via movimento) a curiosa cena observada, isto é, a apresentação de um “mapa dinâmico” do firmamento: contradição aparente com relação à representação estática das imagens cartográficas. A visão do “eu” também coloca em perspectiva certa co-moção espelhada – e sem origem aparente – estabelecida entre “observáveis” (elementos que podem observar e ser observados reciprocamente).


Ao criar “mentalmente” o mapa do firmamento, a partir de uma lógica de visão mais apurada, que não parte apenas de dado intuitivo, mas que se projeta entre o cálculo e a imaginação da experiência poética como aquela pensada por Valéry, o sujeito lírico inscreve-se virtualmente na cartografia do poema, levando-se em consideração a movimentação real dos astros no universo (ao contrário da impressão visual de sua fixidez) e a movimentação do próprio olhar do “eu”, que percorre a paisagem celeste.


Acessando aos céus pela percepção de um horizonte próximo à visão, mas, irremediavelmente, distante ao toque, o sujeito percebe que o mapa criado não é preciso ou definitivo e que talvez o esforço de observação o encaminhe apenas a um estado de errância análogo àquele vislumbrado no percurso estelar. Os astros “não se interligam” apenas devido ao deslocamento que empreendem, mas justamente devido às “distâncias vivas”, paradoxalmente agenciadas como vínculo insólito: “tudo / se move”.


Assim, o “eu” particularizado no fragmento de um olhar também se enreda em uma complexa semântica da proximidade que tanto o aproxima, quanto simultaneamente o aparta dos astros, causando-lhe uma co-moção (emotiva e espacial) constitutiva. O sujeito constantemente reelabora poeticamente sua relação com a “carta dos céus”: mapa, mas também escrita cifrada, habitada por constelações sígnicas correlatas liricamente às constelações celestes, pertencentes ao zodíaco. Como “carta”, o poema expande sua mensagem a uma esfera de intimidade enigmática, posto que não se trata inicialmente de texto escrito pelo sujeito, mas pelos céus, uma “carta dos céus”. Em todo caso, por meio do endereçamento (também poético), o texto-mapa destina-se ao convívio com a alteridade, curiosamente localizado na figura do sujeito poético. Espécie de caixa de ressonâncias que sobredetermina instâncias celestes e terrestres, interiores e exteriores, subjetivas e objetivas, a enunciação lírica do poema esboça um “eu” que dramatiza a cena vislumbrada: alguém em anonimato observa os céus.


Desta experiência alheada de si, cujo foco não é a sua própria intimidade, o sujeito (re)coloca-se no mundo, como espécie de outro atomizado e (aporeticamente constelar) na paisagem terrestre que tanto reflete, quanto refrata a celeste. Ao compreender o deslocamento constitutivo dos astros, a subjetividade lírica compreende também o seu próprio imerso na contingência e na própria movência do mundo. Forma-se assim uma rede de imbricações afetivas que atravessam o “eu” extrapolando-o, lançando-o ao “fora de si”: estratégia lírica que o faz (re)encontrar-se no e com o mundo, a partir de experiências mútuas e insolitamente repercussivas.


No mais, tal conjuntura arquitetada pelo ritmo cósmico “indeterminado e imprevisto” é o que permite a criação do “amor fluente / e sempre vivo”. Engendradas, portanto, noções de fluidez contínua do “tudo” e do amor como potência tanto criada, quanto criativa (em que Eros é capacidade), compreendo a dinâmica celeste (em certo sentido, paradisíaca) proposta por “Mapa” como a própria dinâmica do movimento instituído pelo amor, em que, em certo sentido, ressoa o desfecho da Comédia dantesca, de um “o Amor que move o Sol e as mais estrelas”.


Imbricados em itinerários errantes, “eu” e astros encarnam as próprias indeterminações do caminho aberto nos limites entre os já sujeitos-objetos enovelados pela carne do poema. A expressão “Tudo se move” é conjuntura para a vida e sua contínua transformação, em que se afirma a própria dinâmica do devir como condição para a existência, remontando inclusive à recorrente alegoria do rio (em que “tudo flui”), do pánta reî heraclitiano. A imprevisibilidade criadora de suas experiências conduz sujeito e astros ao encontro, impelindo-os a uma espécie de “destinação cósmica errante”, potencializada também pelo “amor ao destino” no e do poema, em que “tudo / se move”, criando “um amor fluente / e sempre vivo.”.


Apesar de Orides Fontela ter mencionado em entrevista a Michel Riaudel que Nietzsche “não faz muito a minha, não”, sugiro que o conceito de amor fati cabe no presente encontro-leitura, uma vez que o que está em jogo no conceito filosófico, parece ser a identificação da humanidade com uma posição ativa com relação à aceitação e, sobretudo, à criação da vida, por meio de sua afirmação. A vida humana, necessariamente atrelada ao real, convocaria o corpo que, atravessado pelas experiências no mundo, far-se-ia também processo de valorização da existência compartilhada com outros corpos: outras zonas sobredeterminantes e sobredeterminadas de consciência e de espessura no real. O corpo (do sujeito, do mundo e do próprio poema) seria a encarnação da vida.


Caberia ao humano reconhecer-se como dispositivo criativo e simultaneamente criador de sua existência, a partir de gestos afirmativos e também performativos, do “dizer sim” ao mundo e as suas demandas, não importam quais sejam. Ao acenar para a possibilidade do amor fati e a consequente relação de uma “aceitação trágica” da existência, (coadunado a certo “saber dionisíaco”, que encara as aporias da vida como forças criativas e de afirmação da humanidade), busco compreender como o “amor fluente / e sempre vivo”, da ordem do intempestivo, relaciona-se à condição do poeta como amante da vida. O que isto significa? O poeta seria aquele que experimenta sensual e profundamente o transcorrer da vida. O por vir ser-lhe-ia um tipo de “amor ao instante” vivo e eternizado no texto, ainda que paradoxalmente fugidio ao campo da vida humana, agenciado pelo “dizer sim” ao destino, à vida, enfim, como acontecimento.


Ao deslocar-se no mapa lírico criado, sujeito/mundo imbricam-se e são potencialmente capazes de modificar simultaneamente suas paisagens interiores e exteriores, por meio justamente de uma linguagem que investiga e concomitantemente (re)cria o real, com a lucidez de uma lógica de pensamento lúdica e, por isso mesmo poética, como se lê em “Série”: “Primeiro / o apelo / (paralela a palavra / ao universo). // Depois / invocadas potências / formas se tramam puro / mapa lúdico. // Enfim / conclusão do ato / o amor ser possível / amanhece / lúcido.” (Transposição, 1969).


A espessura do mundo articula o movimento existencial da subjetividade lírica, indicando sua relação com o espaço exterior, em que os objetos se relevam como outrem, assim como outras subjetividades sempre em trânsito, enoveladas pela trama espaço-temporal do aqui e agora performatizado por uma voz da ordem do por vir, atravessada, sobretudo, pela experiência mobilizadora justamente do que há de “visível” e de “invisível” (ou “dizível” e “indizível”) da linguagem, que pode se (des)falar ou se (des)ver em sua (trans)criação de mundos poéticos. Portanto, a destinação da poesia oridiana pela busca de interação contraditória (tanto de capacidade afetiva, quanto de força comunicacional extraordinária), faz-se presente no poema “Diálogo”: “Variável asa lúcida / tramando verbos véus / de sentido humano nas / coisas // lúcida sede in / expressa inesgotável / prospecção infecunda / do segredo // texto ato humanidade / variável asa diálogo / entre o verbo e o real / inefável.” (Transposição, 1969).


Tal “conversa infinita” sedimenta-se em um “(in)expresso” e em um “inesgotável”, correlatos ao “entre verbo e o real”. Justamente por habitar esses espaços-limite, o diálogo em poesia, sua experiência de e como linguagem, apresenta-se como “inefável”: impossível de ser plenamente expresso, mascara-se na própria expressão realizada, no amálgama paradoxal de um (in)expresso que se mostra e se esconde simultaneamente ao encarnar a si mesmo no poema. Ao formular-se, tramando “verbos” e “véus”, o poema erige seu universo, lançando-se concomitantemente para o mundo, para a leitura porvir, em movimento análogo à instituição da subjetividade “fora de si”.


Desse modo, a investigação da linguagem como experimentação, como investigação do real e como ato criativo de reais possíveis são questões determinantes para o encontro-leitura que realizo com a obra de Orides Fontela. É na própria forma do canto que sujeito e mundo (re)articulam-se subjetiva e objetivamente, reconstruindo a realidade inscrita na linguagem poética como espécie de inauguração contínua e insólita das experiências de ser e de sentir-pensar. É assim que o lirismo oridiano vincula-se inexoravelmente à “emoção” aflorada tanto no plano interior da subjetividade lírica, quanto no seu exterior (ou na “matéria” do real), instituindo-se como espécie de lirismo objetivo que transforma “emoção” e “matéria” em matéria-emoção (concepção de Michel Collot) poética, em um sentir-pensar o mundo plasmado em poesia.


Referência

ALVES, Nathaly Felipe Ferreira. O lirismo objetivo de Orides Fontela. Tese (doutorado). Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Estudos da Linguagem, Campinas, SP, 2022, 212 p. Disponível em: https://hdl.handle.net/20.500.12733/3942.


Nathaly Felipe Ferreira Alves (1988) é professora, pesquisadora, crítica literária e poeta brasileira sempre em formação. Mestra pelo Programa de Estudos Pós-graduados em Literatura e Crítica Literária da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Doutora em Teoria e História Literária pelo Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). Autora de Poemas dissonantes (coedição: Reformatório e Patuá, 2020), livro ganhador do Prêmio Maraã de Poesia. Atualmente desenvolve estágio de pós-doutorado, na área de poesia, na PUC-SP, com bolsa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). E-mail: nathaly_felipe@hotmail.com.


 

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