Dostoiévski na Rua do Ouvidor

A literatura russa e o Estado Novo | Bruno Barretto Gomide | EDUSP | 2018 | 464 p.


por Rafael Voigt


Bruno Gomide é professor livre-docente de literatura russa na Universidade de São Paulo (USP). Sua tese de doutorado (2004) resultou no livro Da estepe à caatinga o romance russo no Brasil (1887-1936), lançado pela Edusp (2011). Focaliza o que se pode chamar de a primeira invasão literária russa por aqui. Dostoiévski na rua do Ouvidor: a literatura russa no Estado Novo pode ser considerada como a continuidade do projeto de pesquisa de Bruno Gomide.



Se no livro anterior o pesquisador debruçava-se sobre um período de quase 50 anos, dessa vez, passa em revista, ou um pente fino, em um intervalo de 15 anos, entre 1930 e 45, na primeira Era Vargas, em que definitivamente se vê a literatura russa permeando - e por que não dizer integrando - o sistema literário nacional, com presença forte no horizonte de editores, críticos, tradutores, escritores e leitores do país. Neste momento, os nomes de Górki, Gógol, Tchekhov, Tostói, Dostoiévski, Turguêniev, Púchkin, Maiakóvski vão se tornando comuns e palatáveis para o público brasileiro.


Este é o trabalho que resultou na tese de livre-docência de Bruno Gomide, desenvolvida entre 2008 e 2015, defendida na USP. No trabalho do autor, observa-se que a russofilia literária entre nós tem sua fase de consolidação mesmo diante de uma ditadura como a varguista.


Gomide demonstra seu rigor e excelência como pesquisador que mergulha fundo na reconstrução de uma época. Vislumbra-se um amplo cenário literário. De críticos como Brito Broca e Otto Maria Carpeaux que escreviam com frequência para jornais da época alargando a recepção de autores e temas russo. De editora engolidas pela poeira do tempo como a Selzoff que desempanharam papel de relevo na difusão dessa literatura. De escritores engajados na atmosfera soviética como Jorge Amado e José Lins Rego que representavam um trânsito de mão dupla entre URSS e Brasil, inclusive tendo traduções russas de suas obras.


São trabalhos como esse de Gomide que deslindam as razões para a regular publicação de escritores russos em nossa contemporaneidade, com importantes tradutores, editoras entusiastas da russofilia, graduações e pós-graduações em letras russas como o da USP, leitores passionais...


Neste ano, em particular, em razão da Copa do Mundo, o tema Rússia proporcionou uma positiva avalanche editorial de história e literatura russa. A leitura histórica proporcionada por Bruno Gomide mostra de maneira inequívoca a instalação do espírito literário russo entre nós. Dostoiévski na Rua do Ouvidor merece estar na estante de todo o amante da literatura russa e de pesquisadores de literatura em geral, como uma obra de referência, seja pela sua perícia como parâmetro de profícua pesquisa, seja pela amplitude de tantas implicações do universo russo para a nossa cultura literária e política. O trabalho de Gomide oferta ainda uma minuciosa bibliografia ao final, com rico catálogo de obras consultadas em fonte primária, ano a ano do período em análise no livro.


{n. 7 | novembro | 2018}



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