CRÍTICA | Sobre Noite dentro da noite, de Joca Reiners Terron

por Rejane Rocha


Vasta é a fortuna crítica que se consolidou em torno da produção literária brasileira que, de algum modo, tematizou a Ditadura Militar ocorrida no país entre 1964 e 1985. Trabalhos seminais como os de Tânia Pellegrini (Gavetas vazias, 1996), Regina Dalcastagnè (Espaço da dor, 1998) e Renato Franco (Itinerário político do romance pós-64: A festa, 1998), para citar apenas alguns, estabeleceram, nos anos seguintes à abertura política, a descrição dos temas e das opções formais de autores que, em romances, contos e novelas, enfrentaram a difícil missão de compartilhar seu testemunho do horror e da violência, de contar a sua história e a história do país, de encontrar uma linguagem possível para organizar, literariamente, os escombros de um país arrasado, dando forma a uma história ora silenciada, ora distorcida pelo sequestro das liberdades democráticas. Não sem correr o risco do esquematismo e, certamente, sendo injusta com as nuances reflexivas dos estudos citados, é possível identificar, nessas análises críticas - e na produção literária objetos dessas análises - duas linhas de força: uma que identifica e descreve obras narrativas, produzidas no período ou logo depois da abertura, comprometidas com o relato realista, frequentemente objetivo, dos fatos históricos e as consequências individuais da violência do estado de exceção que se instaurara. Outra linha de força se relaciona com o experimentalismo da linguagem que, sem abandonar a nota política, ousa construir um universo linguístico em cuja (des)organização - fragmentações, estilhaçamento da voz narrativa, experimentação com a materialidade do objeto livro e da página - se entrevê a impossibilidade de um relato organizado a respeito dos eventos traumáticos.



{Passeata dos Cem Mil, maio de 1968 | Fotografia: Evandro Teixeira}

Nos últimos anos, a literatura brasileira tem assistido ao incremento na publicação de narrativas que abordam a Ditadura Militar. Um breve e despretensioso mapeamento aponta para a publicação de 17 romances que, desde 2010, abordam a temática, seja como ponto de partida para a organização do enredo, seja como tema secundário. É digno de nota que um deles, A resistência, de Julián Fucks - publicado no ano em que se completavam os 30 anos da abertura - foi agraciado com o mais prestigioso prêmio literário do país, o Jabuti, em 2016. Diante de números tão expressivos e de uma conjuntura sócio política atual tão delicada, em que parlamentares, candidatos e uma parcela da população brasileira vê a instauração de uma ditadura como solução para os problemas do país, seria interessante analisar essa produção, suas especificidades em relação àquelas narrativas que, durante a Ditadura ou logo após a abertura, abordaram e denunciaram os seus horrores e, ainda, refletir a respeito de como ampliar a reflexão crítica a respeito de uma produção que, se se relaciona estreitamente com aquele momento histórico, olha para ele desde este momento histórico.


Evidentemente, narrar a Ditadura Militar, hoje, não é apenas narrar o fato histórico Ditadura Militar (se é que um dia terá sido só isso), mas é narrar a Ditadura Militar que se construiu ao longo de décadas de produção artística e intelectual a respeito do evento histórico; desde de 2012, quando se estabeleceu a Comissão da Verdade, é narrar também o que nunca tinha sido revelado graças ao sequestro dos documentos oficiais e ao silenciamento das vítimas; desde 2016 é narrar, também, o efeitos da instauração de um estado de exceção que, ainda que não "oficializado" faz sentir seus efeitos em muitos setores da vida social.


É essa a medida do desafio que enfrenta Joca Reiners Terron no seu Noite dentro da noite, lançado em 2017. O romance de intricada estrutura e um pouco usual narrador em segunda pessoa se organiza sobre a narração de memórias que não pertencem a quem as narra. Assim adverte o narrador Curt Meyer-Clason ao "você" cuja história acompanhamos ao longo das mais de 400 páginas do romance de Terron: "Essa história é sobre você, mas vai contá-la como se fosse sobre outro"; "Essa história é sobre você, porém é como se a assistisse em um filme cujo ator principal é desconhecido". Cumpre, então, esclarecer que o personagem principal, "você", perdeu a memória em um acidente aos 11 anos, em 1975, e que o relato que acompanhamos são as memórias delegadas a Curt Meyer-Clason pela personagem rata, por meio de gravações em fitas K7, mas a elas não se limita, uma vez que o narrador se ocupa, também, dos sentimentos e elucubrações (hipotéticas) desse personagem cuja memória se esmera em reconstruir, reconstruindo, então, a sua identidade fraturada, compondo os traços de um personagem que não tem consciência de si porque desconhece tudo o que viveu até os 11 anos de idade.



{} Noite dentro da noite | Joca Reiners Terron | Cia das Letras | 2017 | 464 p.

A questão colocada pelo narrador, no primeiro capítulo, como se fora colocada pelo personagem talvez seja uma das chaves da compreensão do romance: "E por acaso que tipo de situação uma criança de onze anos pode viver que lhe faça falta se for esquecida assim de repente, é o que você se pergunta. Não se vive muita coisa até essa idade...". Isso porque a lacuna de 11 anos na memória do personagem principal coincide com os primeiros 11 anos da Ditadura Militar no Brasil e a articulação entre a constituição subjetiva do personagem principal e esse ponto de arranque do estado de exceção são fundamentais para o desdobramento do romance.


Muitas das apreciações críticas feitas no calor da hora a respeito do livro de Terron mencionam o dado autobiográfico - ou autoficcional, que seja! - que estaria no âmago da história que se narra. Motivada, talvez, pela designação que consta na segunda capa do romance, abaixo do título ("uma autobiografia"), a exploração do dado biográfico é reforçado pelas entrevistas realizadas com o autor: em uma delas, opta pelo termo auto-invenção para falar de seu trabalho. Embora não seja uma leitura que deva ser de todo descartada, não creio que ela possa levar a interpretações muito profícuas, que ultrapassem a constatação de que Joca Reiners Terron viveu - como muitos de nós, na casa dos 40/50 anos -, quando criança, sob os estertores da Ditadura Militar, tendo bem pouca consciência do que isso significava para além da obrigação de cantar o hino nacional todas as manhãs e de conviver com os pequenos - mas não irrelevantes - autoritarismos que permeiam todas as relações sob um regime autoritário.


Mais interessante talvez seja pensar de que forma um romance como o de Terron se constrói sobre escombros de fatos, ideias, ideologias e representações em torno do evento histórico Ditadura Militar, não para organizá-los - creio que essa chance já foi perdida pela sociedade brasileira, quando não escancarou os horrores do regime ditatorial, optando por uma solução apaziguadora (para os carrascos, claro) -, mas sim para os expor tal como são. Nesse sentido é que, acredito, o romance de Terron não se acomoda bem a nenhuma das duas linhas de força que a crítica identificou como caracterizadoras do romance pós-64; ao mesmo tempo em que dialoga com ambas. Nele está presente o realismo possível na representação de um evento histórico que acumulou décadas de não ditos, de interditos, de versões oficialescas, de reflexões sociológicas e de representações artísticas, estas duas tentando contornar e desvelar o que, até hoje, insiste-se em deixar encoberto.


E esse realismo possível só é possível graças ao emprego de uma linguagem que o desarticula: um relato de memórias (de outrem) a respeito das memórias (de outrem) narradas para que o seu suposto detentor possa saber qual é a sua identidade no presente, fragmentos de distintas histórias (e temporalidades diversas) que se imbricam e se contaminam mutuamente, o tom sombrio e o efeito de suspense que já podem ser chamados a caracterizar o estilo do autor. Enfim, um realismo possível construído a expensas do absurdo: algo parecido com o que vemos nos jornais, diariamente, desde 2016.



{REJANE ROCHA é professora de literatura na Universidade Federal de São Carlos (UFScar)}

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