CRÍTICA | "Enquanto os dentes": um realismo de experiência

por Rafael Voigt



Enquanto os dentes {romance} | Carlos Eduardo Pereira | Todavia | 2017

Enquanto os dentes {2017} marca a estreia do romancista Carlos Eduardo Pereira. Nesse romance, condensa-se matéria literária entre o realismo da experiência social e a memória. Cadeirante, homossexual e negro, o protagonista Antônio é quem dá força à densidade dramática do texto. Essa marca da literatura de Carlos Eduardo desvela o interesse pela luta contra a invisibilidade social que tantas vezes as políticas públicas e os próprios cidadãos lançam contra os Antônios do Brasil, negando a eles cidadania e dignidade.


Esse inconteste centro de força do romance de Pereira, ao qual, a propósito, chamo de realismo da experiência social lança o leitor na pele de Antônio, para sentir as agruras de quem não quer ser observado tão somente por sua aparente imobilidade ou deficiência (palavra das mais estigmatizadas e que ganha novos contornos nesse trabalho ficcional do autor). Carlos Eduardo cria, com aparente simplicidade, essa sensação que perpassa o leitor ao vivenciar, pela experiência de leitura, uma experiência social como a de Antônio. Uma das primeiras se refere às barreiras enfrentadas em situações do dia a dia, quando o protagonista embarca no Gaivota, no retorno à casa materna.


"{...} O mar está mexido, o que faz com que a barca chacoalhe um pouco mais do que o normal, e o funcionário de colete acha por bem transferir a manobra de embarque do CDR (é assim que eles chamam o Antônio, de CDR), para os marujos vestindo outro tipo de colete, que já devem estar acostumados com a operação de transferência entre o barco e o cais que também balança, quase tanto quanto, só que no sentido contrário. Os dois marujos articulam um movimento coordenado, um deles empurrando por trás, empinando a cadeira de Antônio, e o outro indo de costas meio abaixado, puxando a cadeira para a frente. {...}" (p. 28)


Nesse trecho, a falta de autonomia constrange e demonstra a incapacidade de boa parte da sociedade em tratar pessoas como Antônio, em espantoso estado de coisificação. Essas vivências vão aparecendo no romance: em um banheiro interditado, no passeio público mal conservado, enfim, nos vários obstáculos que impedem o que se chama convencionalmente de acessibilidade.


A estética da experiência de Enquanto os dentes só se torna possível pela habilidade de Carlos Eduardo na estruturação da narrativa. De modo perpendicular, cruzam-se na discursividade literária a todo instante dois elementos: a experiência de Antônio em sua volta para a casa dos pais, atravessando de barca a Baía de Guanabara, após longos anos distante do convívio familiar; e suas memórias de formação como sujeito em um espaço-tempo avassalador da meninice na periferia, da escola, dos tempos de Marinha, da vida como instalador de exposição artística, do trabalho no tribunal, do antigo apartamento, de Arnaldo (dançarino e seu companheiro), da tentativa de ser artista ou fotógrafo. Enfim, nessa segunda perpendicular, a memória pontilha a narrativa, em transições naturais, mas com substancial composição psicológica, com a revelação gradual da doença degenerativa de Antônio e de seus dramas pessoais.


Cada núcleo da memória e das experiências fortalece a narrativa. A forma-romance de Enquanto os dentes se estabelece esteticamente por uma condensação da memória, que nos permite compor o personagem e senti-lo bem presente, assim como notar as tensões existente na vida de Antônio.


A extensão reduzida do romance – são apenas 93 páginas - possibilitaria retornar à velha discussão – em boa parte infrutífera - de definição do gênero literário: conto, novela ou romance? No caso de Enquanto os dentes, o que se vê consagra-se como romance pela pluralidade de vozes e temas emaranhados.


No realismo desse romance, a semântica da deficiência se amplifica quando, na leitura do texto, importa considerar que socialmente o significado da deficiência se alastra pelos sentidos de “deficiência social”, seja pela homossexualidade incompreendida ou pela cor da pela, o que se ouve, ainda nos tempos coetâneos, nos discursos estigmatizados e alinhados a certo conservadorismo liberal, sempre rebaixando a homossexualidade e o negro como fraquezas de caráter unicamente morais, sem imbricar e comprometer a própria sociedade e a formação histórica dos valores atribuído à deficiência física, à homossexualidade e ao lugar do negro. É o pai, o Comandante, aposentado do Exército, quem representa o conservadorismo e o discurso preconceituoso: “Quando é que você vai procurar um trabalho de verdade, hein, rapaz? Esse negócio de pintura é coisa de mariquinha” (p. 87).


Do lado desses sentidos, a deficiência física nos coloca diante dessa insolúvel equação dos nossos tempos, embutida em um único personagem. Contudo, o romance de Carlos Eduardo Pereira não se estende em comiseração ou no hasteamento de bandeiras de qualquer causa que seja, embora, nas entrelinhas, possa o leitor encontrar por conta própria todas essas questões postas. A causa, na pele de Antônio, é simplesmente "ser" como qualquer cidadão.


A expressão “enquanto os dentes”, que intitula o romance, está indefinida, incompleta, como a demonstrar uma fratura, possivelmente dessas temáticas sociais levantadas pela narrativa. Embora pareça reducionista desvelar o sentido do título, é interessante anotar algumas possibilidades de leitura que lançam novos olhares para o romance. Há dois momentos em que se revelam sentidos para esse título que muito diz em sua polissemia do não-dito. O primeiro aparece em relação ao apartamento reformado e adaptado ao cadeirante Antônio: “{...} Só não tocaram no dente, na viga de sustentação”. O segundo momento surge na lembrança sobre os tempos da Marinha: “Enquanto os dentes da boca deram conta, ele mordeu, sustentou a vida que havia construído tijolo a tijolo, só que agora não dá mais. Agora ele sabe que acabou.” (p. 58). Essa segunda expressão preenche o enredo, por revelar a impossibilidade de Antônio seguir sua vida no antigo apartamento, tendo que encontrar refúgio, mesmo a contragosto, somente no retorno à casa materna, depois de um afastamento de 20 anos.


Em meio à barca Gaivota, Antônio está confinado, pesa na barca lotada, quando precisa sair. A barca simboliza uma metáfora por trás da história como uma transição na vida do personagem, de um inesperado e indesejado retorno à casa dos pais. Na barca, compreende-se o espaço de confinamento do cadeirante Antônio não apenas na cadeira e na imobilidade advinda da doença degenerativa, mas também no silenciamento e na incompreensão de suas necessidades humanas, desde as sexuais até as artísticas, levadas à tona em seu memorialismo.


Um ponto de contraste com a imobilidade se encontra na libertadora atividade artística desenvolvida por Antônio, interrompida em parte após o desenrolar da doença parcialmente incapacitante. A arte e a fotografia parecem indicar algo mais sobre Antônio e sobre o próprio romance:


"Antônio pensa que o artista deve encarar sua produção da mesma forma que uma criança olha para seus próprios rabiscos. Ela desenha, pinta ou recorta algo e tem a capacidade de enxergar nesses borrões o mundo inteiro. Em seus experimentos, consegue ver nitidamente o pai, a mãe, um elefante alado, e é assim que toma pé das coisas, que vai se constituindo como gente. Antônio costumava desenhar quando pequeno, e diziam que levava jeito. Ele prestava atenção nas cores do bairro, no que estava a seu redor, e vivia rabiscando em qualquer papel disponível, nos envelopes que o Comandante trazia do trabalho e não prestavam para mais nada, nos versos das folhas com os hinos da igreja que não se cantava mais, porque sempre inventam novos. Mas, com o tempo, como acontece com todo mundo, ele foi se afastando dessa prática, foi sendo induzido a olhar para a frente, e não para os lados. "(p. 88)


Esse olhar artístico de Antônio reflete na própria reflexão sobre a composição literária de Enquanto os dentes, como sugere essa passagem de de significativo teor metaficcional, com a ficção refletindo sobre si mesma. Em trechos como esses, observa-se como a memória (espaço de liberdade) evidencia o lugar da literariedade em nossas vidas. Antônio permite-se ser livre na sobreposição de sua experiência no tempo presente da narrativa com a memória de vários tempos.


O romance aparenta uma simplicidade de forma. É justamente por entre essa simplicidade que se releva o equilíbrio de uma narrativa densa, sem excessos, mas muito bem urdida para o que chamei acima de realismo de experiência, em que o leitor é dragado para o universo particular de Antônio.


No desenrolar da narrativa, há também um desejo do narrador em registrar as coisas da contemporaneidade, porém sem qualquer afã balzaquiano de inventariar coisas e costumes. Não. As coisas estão no discurso porque sua estética social requer. A descrição minuciosa de uma cadeira de rodas, de aspectos orgânicos do cadeirante, dos pertences pessoais levados na mudança, importam muito para a função social da literatura da qual Carlos Eduardo demonstra ter plena consciência.


Enquanto os dentes é uma fotografia contemporânea do Brasil de hoje, com a objetiva bem preparada para estampar a incompletude social representada por personagem negro, homossexual e cadeirante, em um drama pessoal e familiar que tensionam os vários nós da narrativa. Esses nós ressoam no título e na obra, com seu dizer sem dizer por completo, que permanece até a última palavra do romance.


{n. 3 | julho | 2018}


Rafael Voigt, editor da {voz da literatura}, é doutor em literatura pela Universidade de Brasília (UnB).

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