A performance narrativa de Patrícia Portela

por Rafael Voigt



A coleção privada de Acácio Nobre | Patrícia Portela | Dublinense 2017 | Literatura Portuguesa



Patricia Portela é biógrafa de um sujeito desconhecido chamado Acácio Nobre? Teve, de fato, contato com o espólio desse gênio que viveu perto de um século, entre 1869-1968?


A performance narrativa de Patricia Portela avança sobre essas questões.


E a escritora portuguesa é uma artista performática. Sua narrativa se compõe de fotos de objetos pessoais, dos puzzles inventados e construídos por Acácio, cartas e outros pertences, capa de um livro de ficção científica escrito por Acácio.


Acácio, um homem que jamais se deixou fotografar. Que conviveu com Fernando Pessoa e seus heterônimos. Foi cultuado por um grupo fechado de intelectuais.


Acácio Nobre, um gênio apagado da história por Salazar. Patrícia nos entrega outra certeza: a de que esta ditadura apagou da história vários outros Acácios, que só poderão retornar à vida por meio da performance ficcional.


Patricia Portela se vale de um discurso que legitima "a verdade", com notas de rodapé, cronologias, objetos da coleção privada de Acácio Nobre.


Se Acacio existe apenas ficcionalmente, foi muito bem inventado, a ponto de incutir um alto teor realista nessa personalidade tão próximo de um gênio incompreendido, provocador e avesso a várias vanguardas.


Patricia, em sua narrativa, monta um palco, uma instalação, alinha elementos da arte contemporânea? Sim. É instigante pensar e repensar, construir e desconstruir, junto com Patricia, a vida de Acácio Nobre.


Essa é uma das muitas qualidades de uma prosa que promove o engajamento do leitor.


{n. 4 | agosto | 2018}




RAFAEL VOIGT, editor da {voz da literatura}, é doutor em literatura

pela Universidade de Brasília (UnB)

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