A indagação de Chomsky

Que tipo de criaturas somos nós? Esta é a questão proposta por Noam Chomsky no título de seu mais recente livro publicado no Brasil.



No último dia 7 de dezembro, o estadunidense Noam Chomsky completou 90 anos. Chomsky é um dos maiores linguistas da história e um dos mais destacados ativistas políticos.


Lançado há pouco mais de um mês pela Editora Vozes, Que tipo de criaturas somos nós? veicula título que poderia servir perfeitamente para mais um dos livros fundamentais do Chomsky ativista político.


A indagação de Chomsky, não obstante, remete a outras tantas perguntas, que são respondidas nos quatro capítulos do livro que contempla a polivalente personalidade de Chomsky linguista, filósofo, cientista cognitivo e ativista social.


A obra se inicia com uma questão aparentemente basilar: “O que é a linguagem?" Não há qualquer resposta rasteira e pronta para essa pergunta. As considerações de Chomsky pisam novamente suas formulações teóricas de uma gramática universal ou uma espécie de programa mínimo de um sistema computacional de nossa língua interna natural, instalado em cada um de nós. Relembra e revê en passant pontos de sua teoria gerativa.


Desde esse primeiro capítulo, estamos diante de Chomsky filósofo e cientista da linguagem, bastante atento aos rumos dos estudos da neurociência e da ciência cognitiva, o que se estende por outros capítulos.


A segunda pergunta - ou o segundo capítulo - é também de alto teor filosófico: “O que podemos compreender?"


Noam Chomsky passa em revista a consciência e a mente em uma interessante incursão pela história da ciência. O que pensadores como Newton, Hume, Russell e outros mais contemporâneos tem a nos dizer sobre essa questão? É o terreno por onde Chomsky caminha.




Aparentemente fora da discussão linguística, é o capítulo 3: “O que é o bem comum?" Responde ao problema formulado no título do livro pelo viés não mais biológico e cognitivo do ser humano, mas, sim, por sua porção social e política. Chomsky passeia com facilidade por temas como liberalismo, liberdade, anarquismo, (neo)democracia, aristocracia, lutas de classe.


Recém-saídos de um processo eleitoral que escolheu candidato da extrema direita conservadora e pouco sensível a vários aspectos dos direitos humanos e da democracia, este capítulo deve ser lido com atenção redobrada por nós. Ajuda a pensar os destinos do Brasil na Era Bolsonaro. E assim a indagação de Chomsky poderia ressoar com outra intenção. Nesse caso, reescrita para nos provocar: “Que tipo de criaturas somo nós os brasileiros?"


O último capítulo, de volta à filosofia da mente, Chomsky retorna à relação entre matéria e consciência. Empreende debate filosófico que retoma, por exemplo, ideias da filosofia materialista mecanicista newtoniana, sem deixar de relacioná-las com maestria às pesquisas mais recentes sobre os temas abordados. E a pergunta deste capítulo derradeiro se torna ainda mais apropriada: “Os mistérios da natureza - o quão escondidos estão?"


RAFAEL VOIGT


{n. 9 | janeiro | 2019}




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